Para 2020 de olho em 2030

Na década prestes a começar viveremos entre o ressurgimento da inflação, a fragilidade da economia chinesa e um aceleramento da revolução da mobilidade.

A chegada de um novo ano é sempre um momento de partilha generalizada das perspectivas para o ano seguinte, mas a verdade é que os 12 meses seguintes são por vezes um período de tempo demasiado curto para a manifestação das tendências económicas, políticas e tecnológicas mais importantes, que normalmente se desenrolam ao longo de vários anos ou mesmo décadas.

Porém, de dez em dez anos temos a desculpa da passagem da década para alagar o horizonte de análise e falar destas tendências. Das que, apesar de aparentemente ocultas no curto prazo, terão com maior certeza um impacto mais significativo no mundo a longo prazo.

Segue-se então a minha tentativa de, resumidamente, capturar algumas dessas tendências. Que eventualmente se manifestarão ao longo da década de 2020.

Na economia, a inflação

Se a década de 2010 foi dominada pela implementação de políticas de estímulo monetário sem precedentes, desde os programas de compras de activos financeiros por parte dos bancos centrais até aos períodos prolongados de taxas de juro negativas, a década de 2020 vai provavelmente ser dominada pela consequência retardada desses estímulos.

Se na década de 2010 fomos surpreendidos pela ausência quase total de pressões inflacionistas mesmo com tais estímulos, na década de 2020 vamos provavelmente ser surpreendidos por como esses estímulos podem continuar a afectar a economia muitos anos depois de terem sido implementados – através da inflação.

A inovação tecnológica vai certamente continuar a ser um peso grande para as subidas salariais e de preços em todo o mundo. Mas esse peso poderá não ser suficiente para contrariar o facto das taxas de desemprego se encontrarem em mínimos históricos tanto nos EUA como na Europa, o aceleramento da concessão de crédito nestas economias, e as consequências das medidas proteccionistas.

São cada vez mais os relatos de falta de trabalhadores, que vão desde o segmento de inteligência artificial em São Francisco até ao sector da restauração em Portugal, situação que já se está a traduzir em aceleramento do crescimento dos salários – que mais tarde ou mais cedo vai resultar em mais inflação.

Mesmo que seja muito pouco provável que a inflação acelere demasiado, os mercados financeiros parecem pouco preparados para que a inflação acelere moderadamente ao longo da próxima década.

Na política, o populismo e a fragilidade do regime chinês

No espectro político tudo indica que a década vai ser dominada por duas tendências, curiosa e ironicamente simétricas.

Se nas economias desenvolvidas nos encontramos perante o risco do crescimento do populismo, como consequência da estagnação da qualidade de vida de uma grande fatia da população, nas economias emergentes é a luta pela democracia e pela legitimidade governativa que irá provavelmente continuar presente e ganhar tracção, e que terá mais impacto para o mundo.

Esta luta por uma democracia de qualidade atravessou o planeta nos últimos anos, mas só chegou às portas (Hong Kong) daquele que é o maior regime não democrático do mundo, a China. No entanto, o crescente isolamento da China (iniciado por tensões com os EUA, que vão muito para além das questões comerciais) ameaça relevar as fragilidades da economia chinesa, que foram durante décadas abafadas por um modelo económico de exportações e mão-de-obra barata.

Mesmo que hoje a China seja dominante em alguns campos tecnológicos, são tais as fragilidades económicas que terão um impacto maior na vida do chinês comum. Algo que acabará por levá-lo a questionar a legitimidade do regime não democrático chinês.

Na tecnologia, o 5G, os carros eléctricos e autónomos

No que toca à tecnologia é oportuno recorrer à lei de Roy Amara, um cientista americano que percebeu que temos uma propensão para sobrestimar o impacto da tecnologia a curto prazo, e a subestimá-lo a longo prazo. Os desenvolvimentos em torno das tecnologias por trás do 5G, dos carros eléctricos e dos carros autónomos deverão ser uma boa ilustração da veracidade desta “lei”.

Se a meio da década de 2010 a excitação e as expectativas relativamente a estas inovações estava a crescer e nos levou a esperar demais destas inovações, os últimos dois anos foram como que um pequeno balde de água fria atirado pelos desafios das realidades das suas adopções.

Porém, e apesar dos desafios encontrados ao longo dos últimos anos, as várias tecnologias por trás destas tendências continuam a progredir, e muito provavelmente trarão surpresas positivas durante a década de 2020 – o que deverá acelerar a revolução da mobilidade que já se encontra em curso.

Em suma

Da minha perspectiva, na década de 2020:

  • O ressurgimento da inflação vai estar no centro do debate económico e irá moldar a política económica nas economias desenvolvidas, e consequentemente dominar a atenção dos mercados financeiros;
  • O isolamento da China irá revelar as fragilidades da sua economia e comprometer a estabilidade do regime chinês;
  • As inovações do sector das telecomunicações e do sector automóvel fazem crer que durante a próxima década assistiremos a um aceleramento da revolução da mobilidade.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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