Para além do Campeonato do Mundo de Futebol está um mundo de campeonatos

Portugal, precisa urgentemente de ações concretas para que as pessoas sintam que o silêncio em que sofrem não é mais uma vez esquecido pelo seu país e pelos seus governantes. E quanto a essas ações não há grande mistério ou coisas do outro mundo.

A nossa capacidade de processamento de informação é limitada. Por isso necessitamos de utilizar atalhos, as designadas heurísticas, de modo a podermos mais facilmente lidar com o turbilhão de dados que nos rodeiam. Todos nós. E mesmo especialistas, jornalistas ou governantes e políticos em geral, que com “intencionalidade” e outros instrumentos de análise reflectem e analisam o mundo, recorremos naturalmente a estes atalhos. Todavia, a responsabilidade que uns e outros têm deverá fazer mais diferença na forma como lidam com estas limitações do modo como processamos o que nos rodeia.

Tendemos a dar mais destaque e atenção a um assunto que nos entre mais vezes pela porta dentro, ou melhor, pela TV dentro, ou ainda mais actual, pelas redes sociais dentro. E quanto mais aparece o assunto mais ele é avaliado como importante. Para alguns, agora que temos o campeonato do mundo de futebol é como se mais nada existisse. E há assuntos que não têm sempre estudos a saírem, novos dados, casos polémicos que se tornam públicos ou demissões ruidosas. Há temas que até há bem pouco tempo quase não tinham vozes, protagonistas e activistas.

A visibilidade que o tema saúde mental ganhou não pode ser confundido com as acções que daí decorreram para que passe a ter o investimento e o nível acesso que é necessário, mas é verdade que há uma correlação.

O Plano de Recuperação e Resilência (PRR) disponibiliza verbas para finalmente se concretizarem as medidas do antigo Programa Nacional de Saúde Mental (medidas dirigidas àqueles que sofrem de doença mental) e as medidas governativas com ou sem fundos comunitários, nos últimos 6 anos, já levaram o número de psicólogos a evoluir dos cerca de 700 para 1700 nas escolas portuguesas. Teria acontecido sem o crescente de visibilidade mediática do tema? Estes são exemplos de acções concretas e positivas para melhorias na área das políticas de saúde mental, mas não existem muitos mais que pudessem ser dados.

O que os sucessivos Governos têm feito nos últimos 20 anos é muito pouco. A atenção do Sr. Presidente da República e as suas prioridades ficam-se pelo alerta, faz hoje um ano, através das suas palavras da época natalícia.  As prioridades têm sido outras. Os senhores deputados têm, sucessivamente, sido negligentes ou incoerentes na forma como têm proposto ou votado propostas nesta área. Ficam-se por fogo de vista e declarações avulsas, propostas anacrónicas e mostram muito pouco estudo e discussão sobre o assunto, salvo raras excepções. É poucochinho. É mesmo muito poucochinho.

Se eu não fosse um dos poucos privilegiados deste mundo como faria se necessitasse de aconselhamento psicológico?

Se eu fosse um cidadão de um país em guerra, em fuga da morte e destruição, que apoio à integração teria?

Se eu fosse um trabalhador, maltratado pela ideia que tenho de fazer sempre mais, vestir a camisola, ser feliz no trabalho e aguentar seja com que condições for, sem reconhecimento, porque isso de elogios e assim “é para meninos” o que faria?

Se eu estudasse na universidade e tivesse dificuldades de relacionamento interpessoal e de integração na nova cidade onde estou e só pensasse em desistir, o que a universidade faria por mim?

Se eu deixasse a prisão e me quisesse reintegrar, que apoio teria no antes e durante este processo para não entrar em novo processo de exclusão e até reclusão?

Se eu não gostasse da escola, não visse o seu propósito e ainda fosse lá gozado, o que poderia eu esperar para me ajudar a superar neste momento?

Portugal, precisa urgentemente de acções concretas para que as pessoas sintam que o silêncio em que sofrem não é mais uma vez esquecido pelo seu país e pelos seus governantes. E quanto a essas acções não há grande mistério ou coisas do outro mundo.

Portugal também precisa de uma nova Estratégia para a Saúde mental que vá muito para além da doença mental e do contexto da saúde. Uma estratégia de prevenção da doença e promoção da saúde, no trabalho, na educação, na justiça e na acção social. Uma estratégia que seja paradigmaticamente diferente, mais humanista, inclusiva e que aponte a um maior bem-estar das populações, com envelhecimento mais saudável e com acesso em proximidade. Uma Estratégia envolvente, das empresas às instituições sociais, das escolas ao SNS, dos tribunais e formação dos magistrados às prisões e com forte enfoque na comunidade.

Como disse, para além do campeonato do mundo, há muitos outros campeonatos. Neste, da saúde mental, para além dos psicólogos nos centros de saúde (sim, existem psicólogos suficientes em Portugal, é só preciso contratarem-nos) há outra medida que é para já… para ontem.  Num artigo publicado recentemente, já em 2022, na revista “Social Science & Medicine” conclui-se que a existência de legislação específica que obriga as empresas a ter planos de prevenção do stresse e outros riscos psicossociais contribui claramente para que estas os implementem. Embora esta seja uma medida do campeonato da saúde mental, também joga no campeonato da produtividade.

Quando se fala e discute a criação de riqueza, PIB e produtividade temos, definitiva e incontornavelmente, de considerar as práticas de gestão, no que concerne às pessoas, e sobre estas, em específico a sua saúde mental e bem-estar. Pelo sofrimento, pelos custos para toda a economia e pelos impactos no desempenho das organizações, exige-se que as prioridades sejam mesmo outras.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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