“Para mal já basta assim”. “Atrás de mim virá quem bom de mim fará”

Os provérbios populares são o reflexo da forma mais íntima do pensamento e da maneira de ser dum povo. A dada altura da nossa história, que se pautou durante séculos pela audácia e a iniciativa, tornámo-nos relutantes à mudança. Um qualquer psicólogo social deveria analisar este fenómeno, que nos levou a aguentar 48 anos dum […]


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Os provérbios populares são o reflexo da forma mais íntima do pensamento e da maneira de ser dum povo. A dada altura da nossa história, que se pautou durante séculos pela audácia e a iniciativa, tornámo-nos relutantes à mudança. Um qualquer psicólogo social deveria analisar este fenómeno, que nos levou a aguentar 48 anos dum regime totalitário e mesquinho que só não podemos apelidar de “ditadurazinha” por respeito por quem a sofreu na pele e lutou contra ela. Salazar nem sequer chegou a ser um ditador: era apenas um homenzinho de limitados horizontes, princípios espartilhados na cartilha de João de Barros e na Bíblia que governou este país com mão de férreo como se se tratasse duma creche de meninos mal-educados a quem era preciso a cada passo dar umas palmadas e pôr de castigo. Isto sempre com os pés apertados em polainitos, o que não deve ter ajudado muito!

Quarenta anos após o 25 de Abril continuamos manietados com receio de arriscar, de tentar o desconhecido, mesmo sabendo que permanecer significa morrer um pouco mais como povo e sofrer bastante mais como indivíduos.
O país encontra-se num impasse e todos os olhos estão postos no Presidente da República que, possivelmente à data de publicação, já terá tomado uma decisão. Ou melhor, refraseando, já terá tomado uma nova decisão, pois logo no dia seguinte às eleições terá convidado Pedro Passos Coelho a formar Governo, incumbindo-o de estabelecer para tal, as negociações necessárias a assegurar a estabilidade.
Em plena campanha eleitoral, o professor Cavaco Silva afirmou em claro e bom som, que constitucionalmente poderia empossar como primeiro-ministro o líder do partido que, embora sem ter ganho as eleições, assegurava no parlamento uma maioria que lhe permitia governar em estabilidade, uma legislatura. Está bem de ver que nesse momento não pensava no PS mas sim no seu próprio partido, convencido que este perderia as eleições, mesmo coligado com o PP.

Mas eis que o eleitorado assustado com a frase de António Costa que afirmou “ chumbar” um orçamento da coligação que prosseguisse na senda da austeridade, em pânico com as sucessivas comparações com o exemplo grego e esquecido já dos rostos da coligação, deu – PAF- a vitória aos mesmos, porque “assim como assim já se sabe com o que se conta”.
Vitória vírgula, pois que  60% dos portugueses não se deixaram nem  intimidar nem, muito menos, levar na conversa e decidiram que já era tempo de acabar com a alternância dum arco da governação que mais parecia um círculo vicioso.
António Costa, pese embora toda a péssima campanha que fez, soube ler esta vontade e tomou as rédeas da situação!
Caíram–lhe em cima os velhos do Restelo, os  temerosos  e os desesperados.  Acusaram-no de golpe de Estado, de querer o poder a todo o custo, de fazer coligações  à posteriori.

Esgrimidos e  gastos estes argumentos, eis que , PAF, somos surpreendidos com uma proposta de coligação à posteriori com o Partido Socialista e a oferta até do segundo lugar no governo ao líder do PS. Tudo em nome da estabilidade e do interesse nacional. Entretanto e , pelo sim pelo não, vão-se colocando os pobres boys  em lugares cimeiros da função pública, para que  não se aumente os números do desemprego.
Pergunta para queijinho:  foi para esta solução que os eleitores do PAF votaram?  Ou o que se aplica aos outros, a desonestidade intelectual e política que se acusa o adversário vai na senda do ditado popular “ Bem prega Frei Tomás : olha para o que diz, não olhes ao que faz ?”
Enfim, o tabu tem os dias contados!

Manuela Niza Ribeiro
Presidente do Sindicato dos Funcionários do SEF e professora universitária

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