Quinta do Portal quer garantir produção própria de 50% das necessidades de consumo de eletricidade

Paulo Coutinho, enólogo e diretor de produção da Quinta do Portal, revela que um dos próximos projetos da empresa é a instalação de painéis fotovoltaicos

Esta é a quinta de uma série de entrevistas integrada num trabalhado alargado desenvolvido pelo Jornal Económico sobre a sustentabilidade no sector dos vinhos do Porto e do Douro. Após as entrevistas em versão integral ao presidente do IVDP – Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, Gilberto Igrejas; a uma fonte oficial da Quinta da Aveleda; a Tiago Alves de Sousa, diretor de produção e enólogo da Quinta da Gaivosa, a Raquel Seabra, Chief of International Cluster and Sogrape Public Affairs, e a Tomás Roquette, administrador da Quinta do Crasto, esta semana é a vez de Paulo Coutinho, enólogo e diretor de produção da Quinta do Portal, detalhar os projetos que a empresa lançou e tem em curso neste domínio.

Ao longo das próximas semanas, será possível acompanhar no ‘site’ do Jornal Económico outras entrevistas aos responsáveis de alguns dos maiores produtores da região e do País, como a Sogevinus ou The Fladgate Partnership, além de testemunhos sobre o que cerca de outros 20 produtores da região estão a fazer ou a perspetivar no domínio da sustentabilidade.

Paulo Coutinho considera que “relativamente à vinha, é um processo mais lento e desafiador, mas é sem dúvida onde temos avançado mais em termos de não utilização de herbicidas e promoção da biodiversidade, com vantagens claríssimas na qualidade de produção com reflexo na qualidade principal da empresa”, ou seja, “produzir com qualidade sensorial e ambiental”.

Que tipo de medidas de sustentabilidade ambiental têm implementado e quando e porque é que optaram por este caminho?
A sustentabilidade ambiental sempre esteve patente na nossa política de produção. Percebemos a pressão que existe neste momento, que nos motiva ainda mais a reforçar essas medidas. Alguns exemplos: na adega, boas práticas no consumo de água em adega; reaproveitamento de emissões de CO2 [dióxido de carbono] para inertização de lagares; e redução do peso das garrafas. Na vinha, a identificação das castas nas parcelas de vinha velha (trabalho iniciado na parcela M7 da Quinta dos Muros), por forma a perceber dentro do nosso património varietal, quais as que estão a resistir melhor às alterações climáticas, para replicar noutras parcelas; utilização de enrelvamento em zonas produtivas e preservação de espécies autóctones em zonas não produtivas, por forma a aumentar biodiversidade das parcelas e diminuição da evaporação.

Ao mesmo tempo melhorar o ecossistema, com a construção de charca para aproveitamento de água superficial e de nascente; redução da quantidade de água utilizada; eliminação gradual da utilização de herbicidas.

Na horta e pomares, plantação de um ‘jardim gastronómico’, por forma a abastecer o restaurante com produtos produzidos de forma biológica (‘farm to table’); e aumento da área de pomar e outros frutos de bagas.

No hotel, a atribuição da 13ª Chave Verde (foi atribuído nas 13 vezes que nos candidatamos).

De que forma é que estas medidas de sustentabilidade ambiental se têm refletido na sustentabilidade económica da empresa e como é que essa vertente tem evoluído nos últimos anos?
Relativamente à adega, temos conseguido alguns progressos na gestão da água.

Se por um lado, em termos económicos, o custo não é elevado, pois a água provém de nascente e de furo, e, portanto, não se reflecte nas contas, por outro, o custo de a tratar para consumo e depois para pré-tratamento residual não é desprezível.

Relativamente à vinha, é um processo mais lento e desafiador, mas é sem dúvida onde temos avançado mais em termos de não utilização de herbicidas e promoção da biodiversidade, com vantagens claríssimas na qualidade de produção com reflexo na qualidade principal da empresa. Produzir com qualidade sensorial e ambiental. O mesmo se pode aplicar ao que fazemos na horta e pomares.

Na vertente comercial, se por um lado há clientes mais esclarecidos, nomeadamente os monopólios nórdicos e do Canadá, que exigem garrafas com menor peso, o facto de comunicarmos aos restantes clientes que estamos a fazer esse caminho de redução do peso das garrafas, alerta-os para esta questão muito importante dado que o transporte do vinho é o factor que mais contribui para a pegada de carbono dos produtores. E a resposta tem sido muito positiva.

Quais os novos projetos que têm em curso e em perspetiva para 2021 e anos seguintes?
Em relação a projetos a breve prazo, para os anos seguintes, vermicompostagem de engaços de uva, por forma a obter composto a incorporar na vinha e hortas; e um projeto para instalar painéis fotovoltaicos, de forma a garantir produção própria de 50% das necessidades de consumo de electricidade.

Como é que os vinhos resultantes destas medidas de sustentabilidade ambiental chegam ao consumidor de forma diferenciada em termos de percepção e de preço relativamente aos restantes?
Relativamente à forma como chegam estas medidas ao consumidor, destacaria as evidências que conseguimos mostrar a quem nos visita. Para nós, é muito importante que não seja apenas um discurso, mas algo que se pode ver e sentir no local.

O que produzimos deve transmitir estes valores, e continuar a ser a extensão dessa experiência que transmite ‘conforto’ quanto a consumir algo que sabemos que teve o seu peso ambiental, mas também um esforço enorme para que seja equilibrado.

Quais os últimos dados sobre a atividade da empresa?
A Quinta do Portal explora uma área de vinha de 104 hectares, divididos por cinco quintas localizadas no vale do Rio Pinhão: Quinta dos Muros, Quinta da Abelheira, Quinta da Manuela, Quinta do Portal e Quinta do Confradeiro. As unidades de turismo e produção encontram-se na Quinta do Portal, em Celeirós do Douro. O volume de produção anual é de 700 mil litros de vinho (Porto, Douro e Moscatel).

Exporta anualmente para 50 mercados, com maior destaque para EUA, Canadá, Brasil, Rússia e Dinamarca. A exportação vale 60% do valor do vinho engarrafado anualmente.

O turismo representa 10% da facturação anual.

Ao nível das vendas de vinho, o objetivo para os próximos anos é consolidar a marca nos principais mercados, e iniciar um maior investimento nos mercados que estão actualmente no ‘second-tier’, com vista a aumentar vendas e a notoriedade da marca, por forma a reduzir o ‘gap’ entre os principais mercados e estes.

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