Para que os maus triunfem…

O jornalismo português atravessa uma crise profunda, mas de vez em quando surgem exemplos notáveis de competência, independência e seriedade. O trabalho da jornalista Ana Leal sobre o caso Raríssimas é um desses exemplos.

Esta investigação lançou luz sobre um caso de alegada utilização para fins pessoais de dinheiros públicos que estavam destinados a uma causa nobre e meritória. Os estragos causados pela gestão de Paula Brito da Costa à Raríssimas e à imagem das Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) vão fazer-se sentir durante anos.
No entanto, só os menos atentos poderão surpreender-se com o surgimento destas situações no sector das IPSS. O mundo é feito de pessoas de carne e osso e onde existe dinheiro haverá sempre abusos. É a condição humana. Se assistimos a escândalos financeiros em bancos e grandes empresas cotadas, devido a deficientes modelos de governação e de fiscalização, como não poderíamos assistir a situações idênticas num sector que, sem grande controlo, movimenta centenas de milhões de euros e depende fortemente de dinheiros públicos e de lobby junto dos políticos? Era apenas uma questão de tempo até rebentar um escândalo.

Não pertenço ao grupo dos que defendem que o Estado deveria simplesmente fechar a torneira às IPSS e assumir diretamente as missões desempenhadas por essas instituições. E não pertenço a esse grupo porque o Estado não tem condições para o fazer de forma satisfatória e eficiente.

As IPSS chegam onde o Estado não chega, seja por incapacidade ou simples desinteresse. Estamos a falar de centenas de lares para idosos, centros sociais, cantinas, creches, misericórdias e outros projectos que, por todo o País, prestam um insubstituível serviço às populações. Tanto nas grandes cidades como em muitas localidades onde os serviços do Estado já não existem. Sem as IPSS, Portugal seria um país muito mais pobre, desigual e miserável, não tenhamos dúvidas. A própria Raríssimas, apesar destes problemas, desempenha um papel muito importante no apoio aos doentes e às suas famílias. Não deitemos fora o bébé com a água do banho.

Só com instituições fortes conseguiremos mudar este estado de coisas, tanto nas IPSS como nas empresas. E instituições fortes constroem-se com valores e princípios éticos. Bem sei que, numa época em que muita gente passou a ver a realidade em diferentes tons de cinzento, isto pode parecer conversa de outro século. Mas não é. E sem termos a noção daquilo que é correto e do que não é, será muito difícil impedir que os lobos guardem o redil.

Corruptos e ladrões existem em todos os países, desde a civilizada Suécia até ao sul de África. O que verdadeiramente faz a diferença é a forma como as diferentes sociedades encaram esses comportamentos. Para que os maus triunfem, basta que os bons fiquem em silêncio.

Nota: A forma como Tomás Correia, presidente do Montepio, anunciou a saída de José Félix Morgado da liderança do Montepio, em pleno jantar de Natal do grupo, foi no mínimo deselegante. José Félix Morgado assumiu a liderança num altura extremamente difícil – numa altura em que muitos antecipavam o pior – e foi durante a sua gestão que o banco voltou a dar lucro. Merecia mais consideração. Esperemos agora que, com a entrada da Santa Casa, o Montepio não se transforme numa floresta de Sherwood ao contrário, tirando-se aos pobres para dar aos ricos.

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