Paridade nacional

A adesão ao Euro deu mais estabilidade económica, mas também trouxe muitas outras vulnerabilidades. O endividamento é a mais evidente, mas há a taxa de câmbio entre a zona euro, os EUA e a China.

Já sabemos da conhecida e trágica dívida pública de Portugal, uma das maiores dos países da Zona Euro, ultrapassando os 127,4% do Produto Interno Bruto (PIB). Se somarmos a dívida pública à privada, representa no global mais de 290% do PIB, o que faz de Portugal um dos países mais endividados do mundo.

Esta triste sina, do inegável crescimento da dívida portuguesa, seja ela pública ou privada, teve um enorme incremento na sequência da adesão de Portugal ao Euro (maior facilidade de financiamento e com custos inferiores), e implodiu com a crise das dívidas soberanas e a resposta à crise pandémica, que atirou o país para um novo fosso.

O grande desafio, para contrariar esta curva ascendente, seria nesta década, com o necessário equilíbrio da balança comercial, exportar mais do que importar e conter o consumo externo para assim conseguir reduzir para metade o endividamento externo até 2030. Só assim será possível colocar a dívida externa num nível aceitável de sustentabilidade e impactos descendentes de dívida pública.

Se a adesão ao Euro nos deu mais estabilidade económica, trouxe-nos igualmente muitas outras vulnerabilidades, sendo o endividamento a mais evidente, mas também a taxa de câmbio entre a Zona Euro, os EUA_e a China.

Em 2019, Portugal até emitiu dívida em moeda chinesa, pois à época se entendeu que é sempre importante a nossa presença num mercado de grande dimensão, com muita liquidez e poupanças elevadas, ou que a flexibilização e diversificação das fontes de financiamento da República são determinantes, segundo os mais otimistas. Contudo, outros acharam que foi mais um passo de cedência à China, ansiosa por internacionalizar a sua moeda.

Agora veio a surpresa dos últimos 20 anos, desde a criação da moeda única. Na terça-feira 12 de julho, a taxa de câmbio entre o euro e o dólar americano atingiu a paridade: as duas moedas chegaram ao mesmo valor. O euro atingiu um dólar, uma queda de cerca de 12% desde o início do ano. Entre muitos outros motivos, estão os provocados pelo conflito entre Rússia e Ucrânia, e a instabilidade no fornecimento de gás e energia.

O valor da moeda tem impactos significativos na economia. O euro mais fraco torna as compras que fazemos mais caras, nomeadamente as matérias-primas, como o petróleo, que são geralmente cotadas em dólares nos mercados internacionais. Com um euro compramos menos de determinado bem cotado em dólares. Por outro lado, para quem, como nós, tem de equilibrar a balança comercial, faz com que as exportações nacionais sejam mais competitivas.

Assim, pode dizer-se que uma “tempestade perfeita” se abate neste momento sobre a moeda partilhada na Zona Euro. Depois de descer a linha de água, o euro vale tanto como o dólar, com a inflação como está, se antevê (para conter) uma nova subida da taxa de juro pelo Banco Central Europeu.

Antecipam-se tempos cada vez mais difíceis e exige-se cada vez mais prudência por parte do Estado na gestão da causa pública, em especial dos fundos estruturais. Temos de ser competitivos, produzir, crescer e exportar. Veremos se o arrojo das opções do PRR, ou esta paridade, não nos sairá demasiado caro.

Recomendadas

Por favor, acertem a manga do casaco!

Este governo de António Costa, quando tudo indicava reunir as condições devidas para uma navegação calminha, anda ele próprio a criar as suas ondas sucessivas de ruído. Em seis meses de governação, as ondas de maré já se desenvolvem com um barulho ensurdecedor. É tempo de dizer, senhores ministros, falem entre si antes de pôr […]

Uma banca portuguesa cada vez mais ‘ibérica’

Uma fusão entre BPI e Novobanco poderia fazer sentido à luz daquela que tem sido a estratégia do CaixaBank para crescer no mercado ibérico.

As pessoas não podem ficar para trás na nova era

Milhões de euros de investimentos e centenas de megawatts. Ao escrever e ler sobre o mundo da energia, é normal que os grandes números sejam abordados, tal a dimensão dos projetos.
Comentários