“Paris França”: recordações carregadas de humor

A sugestão de leitura desta semana da livraria Palavra de Viajante.

Marta Teives

27 rue de Fleurus, na margem esquerda do Sena, em Paris, foi a morada de Gertrude Stein e palco de inúmeras visitas de gente ligada às artes e às letras. A casa viria a acolher um dos salões culturais mais animados e concorridos da época entre as duas guerras mundiais.

Pablo Picasso, Paul Cézanne, Henri Matisse, Ernest Hemingway, Guillaume Apollinaire, James Joyce, Paul Bowles (a quem aconselhou que visitasse Tanger, em Marrocos) ou Scott Fitzgerald eram alguns dos habitués de sábado à noite. Estes encontros, onde confluíam talento e reflexão, contribuíram para moldar a definição de modernismo na literatura e na arte.

Em “A Autobiografia de Alice B. Toklas”, que é na verdade a autobiografia de Gertrude Stein (Alice era a sua companheira), são-nos narradas muitas destas soirées, onde Stein tinha o papel de mentora, crítica e guru de muitos dos seus convidados. Aceder ao seu salão era já uma forma de validação artística.

Gertrude Stein nasceu em Pittsburgh, nos Estados Unidos, em 1874. Parte da sua infância decorreu em Viena e Paris, cidade onde se instalou definitivamente aos 29 anos, depois de ter estudado Filosofia e Psicologia no Radcliffe College e, mais tarde, Medicina na John Hopkins School of Medicine. Em Paris, viveu com o irmão Leo, crítico e colecionador de arte – a coleção, conjunta, seria dividida em 1914, quando Leo partiu para Itália –, e depois com Alice.

 

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Para a história ficariam sobretudo o seu salão cultural, a frase “uma rosa é uma rosa é uma rosa” e alguma polémica devido às suas posições durante a Segunda Guerra Mundial, em que terá supostamente apoiado o regime de Vichy. O estilo da sua escrita viria a ser replicado, e aperfeiçoado, por autores como Hemingway. Gertrude Stein morreu em Paris em 1946.

Em “Paris França” dá-nos a sua visão da cidade em que escolheu viver durante mais de 40 anos, numa época em que o seu exemplo foi seguido por escritores e artistas das mais diversas nacionalidades. Em sugestiva desordem sucedem-se as recordações de infância, opiniões sobre a França e os franceses, a arte, a gastronomia, a moda e a guerra. E quando os norte-americanos falam de França e dos franceses, falam sobretudo de si próprios e da sua maneira de os ver. Muitos dos episódios narrados estão carregados de humor.

O livro foi publicado pela primeira vez em 1940, no dia em que a França foi ocupada pelos alemães. Em Portugal, “Paris França” é editado pela Relógio d’Água.

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