Partidos homenageiam 25 de abril salientando o que ficou por cumprir

Da esquerda à direita, os partidos homenagearam à sua maneira a data, focando-se no que está ainda por fazer e conquistar em democracia. Só o Chega desvalorizou a Revolução dos Cravos e enalteceu o 25 de novembro.

Os partidos com assento parlamentar homenagearam a Revolução dos Cravos na Sessão Solene Comemorativa do XLVIII Aniversário do 25 de Abril salientando o que ficou por cumprir em democracia.

O representante do Livre, Rui Tavares, assinalou que “a luta pela liberdade e pela igualdade são a mesma”. O  amanhecer do 25 de abril foi usado como sinal de rompimento com a censura, com a polícia política, com a guerra colonial.

O historiador destacou a necessidade de “aprofundar a democracia”, mas não deixou de destacar que algumas das maiores conquistas da revolução foi o acesso ao Serviço Nacional de Saúde e ao Ensino Público. “A gratidão que lhe temos [ao 25 de abril] é o melhor penhor para o nosso futuro coletivo”, terminou.

Inês de Sousa Real do PAN – Pessoas, Animais, Natureza, insistiu que “abril ainda não tem rosto de mulher”, apontando dados da violência doméstica num país onde a justiça é lenta e patriarcal, para além dos números da mutilação genital feminina, salario desigual, risco de pobreza.

Usou os exemplos de Natália Correia, das três Marias, e de Maria de Lurdes Pintassilgo, aproveitando a afirmação da última para dizer que “o sexismo é uma praga nacional” que precisa de ser combatida, e para sublinhar que, em Portugal, os altos cargos do Estado têm sempre rosto masculino.

A deputada única disse ainda que “os direitos humanos não podem ser tomados como garantidos” numa altura em que, saídos de uma pandemia de dois anos, assistimos a uma guerra na Ucrânia.

O PCP insurgiu-se contra a “imposição do pensamento único” e a “hostilização de quem livremente emite uma opinião divergente”. “São perigosos elementos de ataque ao regime democrático e, por isso, têm como alvo os seus mais firmes defensores, os comunistas e outros democratas, visando silenciar a sua intervenção”, indica Paula Santos numa clara alusão às críticas ao posicionamento do PCP em relação ao conflito na Ucrânia.

A líder parlamentar assinalou que o 25 de Abril “é património do povo português, mas nem todos forma obreiros na sua construção” e criticou o “descarado aproveitamento da guerra e das sanções como pretexto para maior acumulação” de lucros por parte dos grupos económicos, insistindo no caminho da paz e da igualdade.

Os comunistas avisam que não permitirão que se branqueie o fascismo. “Não deixamos que se esqueça para que nunca mais volte”, concluiu.

O Bloco de Esquerda optou pela exposição das desigualdade. Primeiro de género, destacando o trabalho das funcionárias da Assembleia e dos transportes, mas também o trabalho doméstico. Nenhum deles é valorizado, defende. Do género para a sociedade, o deputado José Soeiro lamentou o aprofundamento do fosso entre ricos e pobres.

Para o deputado José Soeiro, a revolução do 25 de Abril “não é um património a ser velado com zelo, mas um legado para iluminar as contradições do presente”. Assim, defende que “falta quase tudo”, referindo-se ao Estado Social, à saúde, habitação, mas também no que “ao produzir e viver de outro modo” diz respeito. O bloquista disse ainda que o debate em liberdade não é entre democratas liberais e iliberais, e que a democracia é uma tarefa diária.

Os liberais afirmaram que, antes do 25 de abril, Portugal era um “país fantoche controlado por uma mão cerrada” que esteve quase 50 anos em silêncio.

Com 26 anos, o deputado Bernardo Blanco disse que, para grande parte da população, o Estado Novo é o Estado Velho, numa altura em que celebramos mais dias de democracia do que em ditadura.

“Portugal está novamente num longo sono”, aponta, sublinhando que está economicamente estagnado, socialmente hipnotizado, politicamente desligado. Maus investimentos do Estado, demasiados impostos, poucas escolhas na saúde e na educação, foram alguns exemplos usados pela Iniciativa Liberal. “É preciso mudar. Falta o inconformismo de abril”, frisou.

O líder do Chega, André Ventura, deixou mais críticas do que agradecimentos à revolução dos cravos e do seu legado. “Em vez de celebrar com cravos vermelhos no Parlamento, devíamos pedir desculpa aos portugueses e assumir que falhámos”, disse, enumerando os jovens que são obrigados a emigrar, as famílias e pensionistas que enfrentam elevados custos de vida, face a um sistema marcado por polémicas, referindo-se a João Leão no ISCTE e a Ricardo Salgado com Alzheimer.

Num discurso que gerou algum burburinho nas bancadas, Ventura pediu explicitamente ao Presidente da República para não condecorar “aqueles que torturaram, mataram e expropriaram” em Portugal, defendendo que “quem cometeu atos terroristas, quem patrocinou e promoveu nacionalizações e expropriações não pode ser um herói, tem de ser considerado aquilo que é, um bandido”.

“O 25 de novembro é que nos trouxe a liberdade e a democracia”, frisou o deputado de extrema-direita.

O ainda presidente do PSD, Rui Rio, defendeu que o discurso no 25 de Abril deve ser um momento de autocrítica e não somente de “afirmações laudatórias”, argumentando que a solução para travar o crescimento dos extremismos é “ter o rasgo de fazer diferente” e reformar “sem cobardia nem hipocrisia”. Mas deixou ainda críticas ao eleitorado.

“Se é justo responsabilizar a política porque ela não tem tido a coragem de fazer as reformas estruturais que o desenvolvimento do país reclama, a verdade é que a maioria do eleitorado também valoriza muito mais a promessa fácil da benesse imediata do que a realização das reformas que preparam o seu futuro”, frisou.

Os socialistas concentram-se mais nos ganhos do que no que falta por cumprir, destacando a vitória do Estado Social, do Serviço Nacional de Saúde, do Ensino Público, e da liberdade.

O deputado Pedro Delgado Alves começou por homenagear o falecido Jorge Sampaio, “construtor da democracia”, o que mereceu uma ovação em pé do PS acompanhada por aplausos de outras bancadas. O antigo Presidente da República já era um homem livre antes da liberdade, e uma figura que relembra a importância “do respeito e convivialidade” do debate em democracia, indicou.

Nesta linha, foram vários os avisos referentes ao perigo do populismo. O socialista afirmou a necessidade de preservação do estado social e da qualidade das instituições democráticas. “Os descontentes com a democracia não são inimigos de abril”, mas são mais suscetíveis de ser manipulados, acrescentou.

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