Patrick Monteiro de Barros: “A área marítima é o maior trunfo para o futuro económico do país e estamos a ignorá-lo completamente”

O empresário Monteiro de Barros, em entrevista ao Jornal Económico, considera que Portugal está a ignorar o potencial das riquezas que estão no subsolo da extensão da plataforma marítima. E diz que nos Açores já viu navios chineses e franceses que “estão lá a fazer sondagens”. Mas “nós não sabemos o que está no subsolo desta zona marítima”, alerta.

Cristina Bernardo

Patrick Monteiro de Barros, ex-acionista do Grupo Espírito Santo, em entrevista ao Jornal Económico – publicada na edição em papel nº 1990, de 24 de maio – abordou a situação da extensão da plataforma marítima de Portugal. Trata-se de um tema que o empresário tem acompanhado de forma apaixonada, mas relativamente ao qual faz muitas críticas porque, diz, “estamos a ignorá-lo completamente”. No processo de alargamento da plataforma marítima, Portugal deu cumprimento à Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, e integrou-o na orgânica do Ministério do Mar. Após o reconhecimento da extensão desta plataforma continental, a vasta área marítima de Portugal passa a totalizar 3,87 milhões de quilómetros quadrados, ou seja, praticamente 42 vezes a área de Portugal Continental, sendo comparável à área da Índia, e maior que a Zona Económica Exclusiva (ZEE) do Brasil, que se fica pelos 3,66 milhões de quilómetros quadrados.

Como vê as oportunidades criadas a Portugal no sector do mar?

A área marítima é mais uma demonstração de coisas que não vão bem no país. Portugal é um país na ponta da Europa, intrinsecamente pobre, sem recursos, mas com boa gente. No século XVI fomos para o mar, descobrimos o mundo, fizemos fortuna nas especiarias, na escravatura, depois no Brasil, e depois nas colónias. Basicamente, Portugal viveu 500 anos à custa de economias exógenas. De fatores de fora para dentro. Com o 25 de abril perdemos tudo e Portugal foi duas vezes à bancarrota. Depois, como Deus é grande, tivemos a Europa. E a Europa foi um novo fator exógeno que ajudou a recompor o país. Com fundos comunitários elevados, com muito dinheiro. Portugal foi dos países que mais recebeu em relação à população e à superfície, dinheiro esse que ajudou muito, mas que também foi muito mal gasto. Eramos o país que tinha menos quilómetros de auto-estrada e hoje somos o primeiro da Europa. Não se fez a quarta auto-estrada Lisboa-Porto porque tinha de passar por Espanha. Fizemos brincadeiras que custaram fortunas, como a Expo e os dez estádios de futebol do Euro, em que há vários que estão permanentemente vazios. Gastou-se muito dinheiro. Era o lóbi do cimento. Mas esse maná está a acabar. Até porque a Europa tem grandes pontos de interrogação. Não se sabe o que vai acontecer com a Europa.

Vamos ter um espaço marítimo alargado…

Aconteceu-nos esta coisa. Em princípio vamos receber um espaço marítimo internacional que é praticamente igual à superfície da Europa…

Com 42 vezes o nosso território…

Exatamente. Ora, não se fez nada. A única coisa que se fez até agora foi nomear – e isso já é muito importante – uma ministra do Mar, que é uma pessoa simpática. Mas não se fez mais nada. Nós não sabemos o que está no subsolo desta zona marítima. Não temos nenhum levantamento. Não temos a mínima noção do que há lá. Porque o mar é muito fundo? Há fundos com 7000 metros no Brasil onde vão buscar petróleo. E o que é que está a acontecer no mar português? Estão navios, supostamente científicos, franceses, chineses e outros a começarem a fazer levantamentos. Vi-os no ano passado nos Açores. Entretanto, Portugal que era um país de marinheiros, com as políticas marítimas do país no pós-25 de abril acabámos com a nossa frota mercante, que era uma frota razoavelmente grande, acabámos com a nossa frota pesqueira, e a nossa Marinha nacional, que era uma das melhores em termos de know-how, está muito mal, com navios velhos. Mas, mais grave: a nossa zona marítima tem um ponto delicado – as ilhas selvagens. Aos espanhóis “no les gusta” a soberania de Portugal sobre as Selvagens. Ponham lá um pelotão de fuzileiros navais. Qual é o sentido de mandar tropas para a República Centro-Africana, se não temos meios para mandar homens para as Selvagens? As Selvagens estão a ser completamente ignoradas. É uma vergonha.

Como é que considera que poderiam ser aproveitadas as Selvagens?

As ilhas têm uma área à sua volta de águas territoriais. Pertencem ao arquipélago da Madeira. Os espanhóis já estão a falar neste tema nas Nações Unidas. Não há atenção porque não há dinheiro. Gasta-se demais em coisas onde não se devia gastar.

E como conseguiremos desenvolver uma área tão grande sem ter dinheiro? Teremos de captar investidores chineses e outros estrangeiros?

Eles estão lá. No âmbito de uma colaboração científica andam a tentar saber o que há por lá. Estão a fazer levantamentos no subsolo marinho. Fazem sondagens com sonar. Suponhamos que se encontra ao largo dos Açores um jazigo de gás natural. Também vão fazer como no Algarve? Não se pode explorar? Para mim, a área marítima é o maior trunfo que nós temos para o futuro económico deste país e estamos a ignorá-lo completamente. Se não temos meios para sabermos o que lá está, vão aparecer especialistas que propõem parcerias. Fazem a pesquisa e dão-nos 10%?

Abrimos concessões?

Sim. Mas se não soubermos o que está lá na concessão vamos negociar como um tótó.

 

Recomendadas

Empresas reafirmam investimento contra riscos cibernéticos

A cibersegurança é uma prioridade para as empresas. O reforço do investimento na proteção de contra ataques mantém-se apesar da conjuntura atual marcada pela subida dos custos. 

Equinix cria fundo solidário de 50 milhões para promover a inclusão digital

A empresa de tecnologia norte-americana criou uma nova estrutura de apoio educativo. O conselho de administração da fundação irá, todos os anos, determinar o montante de doações da fundação, de modo a cobrir a concessão de contribuições ou a correspondência com as ofertas dos colaboradores.

Tecnológica portuguesa Innowave compra Cycloid

Desde 2018 que o grupo tem uma forte estratégia de M&A. “Esta aquisição é mais um passo na nossa estratégia de crescimento, materializada também na criação de centros de competência em Portugal, como é o caso de Lisboa, Porto, Coimbra, Faro e Beja”, afirmou o CEO da Innowave, Tiago Gonçalves.
Comentários