Paulo Macedo será o novo presidente da CGD

Alta pressão na escolha do sucessor de António Domingues. Mas as condições em que o cargo lhe é oferecido são “sui generis”: com meia equipa e um plano desenhado.

Até domingo deverá sair do Ministério das Finanças o anúncio do novo presidente da Caixa Geral de Depósitos, revelam fontes ligadas ao processo, confirmando assim a palavra dada pelo primeiro-ministro. Já a SIC avançava ontem, citando fonte do Governo, que vai ser enviada a lista, hoje, sexta-feira para o Banco Central Europeu.

No rescaldo da demissão de António Domingues e de mais seis administradores, o primeiro-ministro António Costa garantiu que iria revelar quem é o novo presidente da CGD ainda esta semana. O prazo previsto pelo BCE para conferir a idoneidade aos novos gestores (processo de ‘fit and proper’) começará a contar a partir daí.

O nome que surge como o quase certo para suceder a António Domingues é o de Paulo Macedo, o ex-ministro da saúde, que foi administrador do BCP e que está na administração da Ocidental.

Segundo fonte do Governo, Paulo Macedo está em negociações com o Ministério das Finanças, mas até ao fecho a edição ainda não estava totalmente fechado.
Foi uma sugestão do Governador do Banco de Portugal, mas começou por esbarrar num obstáculo: aceitar a presidência da CGD nesta altura é aceitar parte da equipa de António Domingues (Tiago Ravara Marques, João Tudela Martins, que vieram do BPI e Pedro Leitão, ex-PT) e é aceitar pôr em prática um plano de restruturação e um plano de recapitalização já definidos e em marcha.

A saída antecipada dos administradores da CGD, por iniciativa do Estado, implica que a Caixa lhes pague à cabeça todos os ordenados até ao fim do mandato (2019). Será politicamente difícil justificar que se contrate uma nova administração até 2019 e que ao mesmo tempo se indemnize os que lá ficaram. Se o tema dos custos salariais não saiu do debate político desde que foi conhecida a entrada de António Domingues e a mudança do estatuto do gestor público, a duplicação de custos com administradores da CGD não escapará à polémica.

Neste processo o Governo convidou algumas pessoas e fez algumas abordagens para saber da disponibilidade. Para além de Paulo Macedo (que começou por não aceitar, mas depois terá reconsiderado) também Nuno Amado (presidente do BCP) terá sido convidado, mas recusou. Segundo algumas fontes houve conversas também com José Félix Morgado, do Montepio Geral, Bernardo Meyrelles (do Deutsche Bank) e Miguel Melo Azevedo (do Citigroup com o pelouro do mercados africanos). Mas o Jornal Económico sabe que não será nem Miguel Azevedo, nome que foi inicialmente avançado pela TVI 24, nem Bernardo Meyrelles.

Os nomes de Eduardo Stock da Cunha, José Carlos Sítima (Santander Totta), de Carlos Tavares (ex-CMVM), de António Ramalho (Novo Banco), e Miguel Bragança também surgiram na lista de nome dos “presidenciáveis” para a CGD. Mas também nenhum destes nomes se confirma, soube o Jornal Económico.

Há urgência na escolha da nova liderança do banco público, embora António Domingues se tenha comprometido a ficar até ao final do ano ou até à nova equipa tomar posse. O Governo recorreu aos mais sábios conselheiros para descobrir um presidente para a CGD. De Carlos Costa a António Horta Osório, até aos próprios presidentes dos bancos portugueses e mesmo Marcelo Rebelo de Sousa ajudou nessa tarefa. Mas Paulo Macedo parece ser a escolha primordial do Executivo. No entanto, aceitar a presidência da CGD quando no horizonte, segundo as nossas fontes, havia o cargo de vice-Governador do Banco de Portugal, não é uma decisão simples.

O novo presidente da CGD vai herdar um banco com uma auditoria em curso a exigir o reforço brutal de imparidades para justificar um colossal aumento de capital; um banco com uma auditoria forense na agenda para determinar responsabilidades de gestão passadas; uma comissão parlamentar de inquérito em curso; um escrutínio especial de Bruxelas, com olhos postos no plano de recapitalização que ainda não está completamente aprovado; um banco com um plano de restruturação significativo, que passa por redução de mais de 2.500 pessoas, e encerramento de balcões, para além de venda de ativos; e com a obrigatoriedade de fazer uma emissão de obrigações subordinadas que custará ao banco 10% de juros, ou seja 100 milhões por ano.

O plano de recapitalização da Caixa acordado com Bruxelas é de 5.160 milhões de euros e passa por um aumento de capital em dinheiro de até 2,7 mil milhões (que só deverá avançar na segunda quinzena de março), uma emissão de obrigações subordinadas destinadas a investidores privados (1.000 milhões de euros), para além da conversão de capital contingente (CoCo’s) em capital do banco (960 milhões de euros), assim como a passagem da ParCaixa para a CGD, avaliada em 500 milhões de euros.

A nova administração da CGD herda um banco com um aumento de imparidades imediato, que consome o rácio de capital este ano e com um aumento de capital adiado para 2017.

As imparidades que estão a cargo da Deloitte, auditor de sempre da CGD, terão, segundo fontes ligadas ao processo, em dezembro aumentado muito face a setembro, para justificar o extraordinário nível do aumento de capital previsto no acordo com Bruxelas. A transferência de 50% da ParCaixa, que ocorrerá este ano, irá ajudar a mitigar esse efeito nos rácios de capital do banco.

*com V.N.

 

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