Paz social em risco

Apesar dos ventos de feição à esquerda dos últimos seis anos, houve oito greves gerais da função pública desde que António Costa tomou posse como primeiro-ministro, sendo o motivo principal dos protestos a perda de rendimentos.

Vivem-se tempos conturbados em Portugal, com o País mergulhado em várias crises, e nem a discussão de um novo Orçamento do Estado para 2023 anima qualquer português que tem as suas responsabilidades a cumprir.

Foi precisamente há um ano que se deu o divórcio entre o Partido Socialista e os partidos à sua esquerda e, passado este tempo, após a crise pandémica e com uma guerra na Europa, o país está em suspenso na ânsia de novas medidas do Estado para mitigar os disparos brutais da inflação, da energia e das taxas de juro.

A contestação social tem subido de tom e vários dossiês complexos esperam António Costa nos próximos tempos, com os professores, profissionais da saúde, dos transportes, da TAP, dos trabalhadores dos CTT, das prisões, dos tribunais, polícias, bombeiros, etc.

Depois de alguma paz social consentida e vivida nos primeiros anos de geringonça, e após os últimos dois relativamente tranquilos, o pós-divórcio à esquerda põe em evidência a agitação que ameaça tomar conta das ruas do país, voltando aos tempos em que Portugal viveu uma intervenção externa. A somar, a transição da Liderança Comunista, com a saída de Jerónimo de Sousa, trará a prazo ainda mais dores de cabeça ao primeiro-ministro.

Recapitulemos. Apesar dos ventos de feição à esquerda dos últimos seis anos, houve oito greves gerais da função pública desde que António Costa tomou posse como primeiro-ministro, sendo o motivo principal (28,7%) dos protestos a perda de rendimentos, os aumentos e a precariedade nos salários da administração pública.

Estima-se que novo Secretário Geral do PCP, com o seu partido ferido pelo “desvio” de votos para o centro, conseguido pelo PS nas eleições e traduzido numa maioria absoluta, venha a refugiar-se na rua e na luta dos trabalhadores em ações e manifestações. O grande desafio será mesmo o da sua capacidade de mobilização junto do povo, após a perda do peso parlamentar que tinha.

Os dados estão lançados e basta analisar os dados dos pré-avisos de greve (superiores a 1.000 em cada ano dos três últimos, do primeiro governo do PS em 2015), para se anteciparem as dores de cabeça que aí virão. E para todos, pois em média, na última década, perderam-se quase 51 mil dias de trabalho com as greves realizadas em cada um dos anos.

Este clima de crispação à esquerda que se adivinha tem de ser superado pelo Governo, a fim de manter a paz social. O desafio será ainda maior se pensarmos que a maioria destas greves e lutas de rua, prometidas pela Central Sindical do PCP, são de funcionários públicos, que não correm o risco de perder o emprego e cujas ações de luta podem vir a afetar a vida dos cidadãos em geral.

O clima tenso entre o Governo e o mundo sindical, e a falta de diálogo entre ambos, foi uma das características dos governos de António Costa, que preferiu o diálogo partidário com a geringonça às negociações pela via da concertação social, o que não foi saudável para a paz social que o país necessitava.

Agora, apesar da tentativa de corrigir este rumo com os últimos acordos alcançados, os cidadãos nada têm a ver com estes posicionamentos de esquerda, pois só têm a legítima expectativa de ver melhoradas as suas condições de vida e de trabalho, sobretudo, porque acreditaram nas muitas promessas da esquerda, que simplesmente não foram cumpridas.

Os portugueses precisam de paz social e não de guerras de poder, uma vez que, com maioria, não há crise política, são mesmo os portugueses a estar em crise. Paz social precisa-se. Após tantos sacrifícios, o povo merece.

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