PCP: Maior desafio do novo líder será recuperar partido no terreno, diz historiador José Neves

O professor universitário e historiador José Neves, ex-militante comunista, defende que o próximo secretário-geral do PCP terá como desafio recuperar a presença do partido no terreno, enfrentando o défice de mobilização política dos cidadãos.

Em declarações à Lusa, José Neves considera que a escolha de um nome desconhecido na esfera mediática não surpreende se se atentar no perfil do nome que mereceu “amplo consenso” junto dos membros do Comité Central: um homem do aparelho, funcionário, com raízes populares, a quem são reconhecidas, dentro e fora do PCP, diz, capacidades conciliatórias e de abertura.

“Podemos ler aqui que a orientação principal dessa escolha tem de ver com a capacidade de o PCP recuperar presença na sociedade, no terreno, nos territórios, nas empresas, nos meios sociais e culturais. E isso corresponde a um diagnóstico e acertado”, considerou José Neves, presidente do Instituto de História contemporânea da Universidade Nova de Lisboa – coordenador e um dos autores da antologia de textos PCP 1921-2021, da Tinta da China.

Vinte anos depois da última crise interna – que opôs renovadores a ortodoxos em discussões intensas sobre a identidade e o medo da degenerescência do PCP – esse debate “está ultrapassado”, considerou o professor universitário.

À altura, na segunda metade da década de 90 e início de 2000, o investigador militava na Juventude Comunista Portuguesa, época de debates internos sobre qual a política de alianças e qual a linha que o partido deveria seguir para se afirmar, depois do desmoronamento da União Soviética.

Hoje, “isso não existe”, especialmente depois de se ter visto o secretário-geral comunista, Jerónimo de Sousa, a tomar a iniciativa de, em 2015, dar condições de governabilidade a um PS minoritário, assinalou.

Para José Neves, as causas da perda de influência do PCP – eleitoral e social – não residem num problema de comunicação, não se resolvem com “soluções mágicas” nem dependem de figuras “mais ou menos mediáticas”.

“O problema que o PCP enfrenta não tem só a ver com passar a mensagem de forma eficaz. Os desafios que se colocam são os défices de mobilização política dos cidadãos. Para o PCP, essa dinamização, feita a partir de baixo, a partir das camadas mais populares, na construção de redes, é essencial”, disse.

José Neves sublinhou que “atendendo aos discursos, aos textos e intervenções” políticas de Paulo Raimundo, “poder-se-á concluir que há uma valorização, por parte do PCP, da necessidade de construir, reforçar ou expandir as redes políticas no terreno, associativas, sociais e a nível laboral”.

“Desse ponto de vista não é uma escolha que esteja limitada ao horizonte da próxima contenda eleitoral”, considerou.

Terá sido escolhido, assim, um dirigente capaz de uma corrida de fundo, num cenário de crise económica e social e de desmobilização política, agravado, entre outros fatores, pelo desgaste causado pela aliança que permitiu ao PS minoritário governar. Agravado ainda pelas marcas deixadas pela pandemia, nomeadamente algum deslaçar dessa orgânica de base na qual o PCP se sustenta, como admitiu à Lusa um dirigente comunista de topo.

Paulo Raimundo, que será o primeiro líder de um partido de esquerda em Portugal nascido depois da revolução do 25 de Abril [nasceu em 24 de setembro de 1976), tem, além de um perfil com características agregadoras, experiência em tarefas de organização, fazendo atualmente a ligação entre o Secretariado e as organizações regionais do Norte e como responsável, na Comissão Política, pela Direção da Organização Regional de Braga.

Paulo Raimundo tinha 24 anos quando o PCP preparava o XX Congresso, em 2000, num dos momentos mais dramáticos de discussão interna, que culminou em processos disciplinares a altos dirigentes e gerou uma debandada de militantes e simpatizantes.

Nesse Congresso, ficou enterrado o projeto de renovação como o queriam destacados militantes como João Amaral, Egdar Correia, já falecidos, e o histórico Carlos Brito, e foi também nesse Congresso que Paulo Raimundo subiu à Comissão Política do PCP.

José Neves, à altura militante e identificado com o movimento renovador, recorda alguns desses debates internos, na segunda metade dos anos 90 e na preparação do Congresso de 2000, lembrando Paulo Raimundo como “alguém a quem se reconhecia uma capacidade de diálogo e de escuta”.

“Era alguém que, independentemente de as suas posições serem identificadas como opostas às dos renovadores, se reconhecia uma capacidade de diálogo e de escuta, uma vontade de manter as pontes, uma atitude mais reconciliatória”, afirmou.

Raimundo já entra com esse registo conciliatório no Comité Central do PCP em 1996, e na Comissão Política em 2000, acumulando a experiência de tarefas de organização que já tinha tido, enquanto membro do Secretariado da JCP, nos anos 90.

A ascensão deste jovem militante deu-se aliás, sublinha José Neves, durante os mandatos de Carlos Carvalhas como secretário-geral, e numa altura em que o setor intelectual predominava nos organismos de direção executiva.

“E não é um sujeito crispado, era uma pessoa que lidava bem com a crítica interna”, assinala o investigador, que se desfiliou do PCP em 2001.

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