Exportações. “Pela primeira vez vamos ultrapassar os 100 mil milhões”

As exportações portuguesas demonstraram ter um elevado grau de resiliência e suficiente músculo concorrencial para terem uma posição cada vez mais forte em termos da formação do PIB. A barreira dos 50% ainda pode ser ultrapassada.

Segmento fundamental do crescimento do país, as exportações parecem ter ultrapassado com distinção os tremendos desafios colocados em primeiro lugar pela pandemia e logo de seguida por um ciclo em absoluto inesperado de forte pressão inflacionista e de consequente encolhimento do consumo. Enquanto o desafio de 2023 não chega e permite ainda todos os cenários, é para já tempo de celebrar novos recordes.

Quais são as expectativas para o fecho das exportações no final de 2022?
Os números das exportações são muitíssimo interessantes. Provavelmente iremos acabar 2022 exportando mais de 70 mil milhões de euros em bens, mas o número redondo e mais interessante é que pela primeira vez vamos ultrapassar os 100 mil milhões. É um marco muito relevante e digo-o com algum conforto porque, mesmo se pegarmos nas estimativas mais prudentes, e eu percebo essa prudência porque o último trimestre ainda pode ter algumas surpresas, ultrapassaremos esse valor. Demonstra aquilo que a agência tem dito nos últimos anos: há uma alteração do paradigma económico do país – a proporção das exportações no PIB crescente. Tivemos o solavanco do ano da Covid, mas a verdade é que as exportações descolaram em 2021 e em 2022 continuam. O que vemos é que, sempre que há um choque transversal – a Covid é um bom exemplo, os preços das energias, os custos das matérias-primas são outros – que afeta todas as empresas europeias, as empresas portuguesas mostram resiliência e continuam a ganhar quota.

Quer dizer que, num quadro em que as condições de concorrência não se alteram, as exportações mantêm um grau de intensidade assinalável?
E muita competitividade. Isso é uma enorme vitória do nosso tecido exportador, sobretudo se tivermos a perspetiva histórica de olharmos há dez, 12 anos. Foi algo que começou nessa altura e agora os resultados estão à vista. Como é óbvio, estes fatores afetam muito a atividade e os resultados das empresas, mas não tenho dúvida que o caminho é continuar e manter competitividade; e isso as nossas exportadoras estão a conseguir.

Os 100 milhões comparam com o quê no ano anterior e que percentagem do PIB é que agregam?
No ano passado, exportámos quase 90 mil milhões. O que estamos a assumir é que as exportações irão subir pelo menos 15%. Há estimativas que dizem que podem crescer mais 30%. O dado que é importante em termos de PIB é vermos que, no primeiro semestre, atingimos uma proporção das exportações de cerca de 49%, muito perto dos 50%. Se vamos terminar o ano assim ou não, ainda não sabemos. Mas o que é mais importante é ver o que está a acontecer nos últimos quatro, cinco anos. A tendência é manifestamente crescente, vínhamos a ganhar sistematicamente proporção das exportações no PIB, depois tivemos o solavanco da Covid e a recuperação em 2021 mas mesmo assim em proporção do PIB não foi suficiente, e o que vemos este ano é que já estaremos a ultrapassar os 44% que tínhamos em 2019.

Em termos de sectores, quais são os que estão na linha da frente?
Este ano, temos um problema de escolha. Temos os sectores todos a crescerem, a dois dígitos. O turismo correu muito bem, felizmente, mas há outros serviços a correrem muito bem, como o IT e o software, que estão a crescer muito significativamente e há três, quatro anos, quase não falávamos deles. Na área dos bens, destacaria o sector automóvel, a metalo-mecânica, toda a maquinaria e, como é óbvio, a petroquímica, os combustíveis – o enquadramento internacional tem levado para aí. Uma grande prestação da indústria de precisão, de alto valor-acrescentado, da indústria tecnologicamente exigente. Às vezes não destacamos uma coisa importante: os nossos principais mercados exportadores são extremamente competitivos – estamos a falar da Alemanha, de França, do Reino Unido, dos Estados Unidos. Estamos a competir em mercados complexos, exigentes – e a ganhar.

Vê alguma pujança nos chamados sectores tradicionais?
Também estão a portar-se bem e até destacaria algo que muitas vezes não é visível nos números: todo o trabalho que estão a fazer na área da sustentabilidade. Essa é a maior aposta que estão a fazer para o futuro. E mais uma vez exige-se sofisticação, mas é uma aposta que se está a fazer porque compreendemos que são áreas muito competitivas, muito exigentes. Destaco muito os sectores que têm crescido mais nos últimos anos, mas os sectores tradicionais – que de tradicional não têm nada – estão a ter também uma performance muito boa. Há outro lado importante: cerca de 50% das empresas exportadoras fá-lo para apenas um mercado, o que não é positivo, mas no oposto da curva (as que exportam para mais de cinco mercados) vemos que sistematicamente crescem em mais mercados.

Há alguma alteração na geografia das exportações?
O nosso ‘top 5’ mantém-se. O que destacaria são três prioridades: a Europa; os mercados onde temos acordos de comércio livre – e aqui incluem-se o Canadá e os Estados Unidos; e os países da CPLP. Destacaria o segundo pilar: para além da Europa, mercados onde o acesso é mais fácil.

Que pode avançar em termos de captação de investimento direto estrangeiro?
Os números são muito bons. Este ano não iremos anunciar dados contratualizados uma vez que estamos a mudar de quadro, do PT 2020 para o PT 2030. É um ano onde não vamos fazer contratualização relevante. Mas, em termos de novos clientes – um dado que pode ser analisado todos os anos – já batemos o recorde de 2021: tínhamos 42 novos clientes a vir para Portugal. Há uma proporção muito grande desses novos clientes no sector dos serviços, sobretudo em centros de desenvolvimento de software, centros de alto valor-acrescentado e que depois se refletem nas exportações de serviços. E isto são os resultados a outubro, vamos ver como será até ao final do ano.

Há nuvens negras no horizonte para 2023?
O aumento muito grande dos custos da energia está a afetar diretamente as margens, sobretudo da indústria, e é uma preocupação porque afeta também a resiliência. E a resiliência financeira, quando conjugada com o aumento da inflação e com o aumento dos custos financeiros, preocupa-me. Se os custos das energias se mantiverem muito tempo, se os custos financeiros subirem muito depressa, tudo isso afeta o balanço de muitas das nossas exportadoras. E isso pode levar a que tenhamos de equacionar o que é que queremos exportar.

Foram nove anos à frente da agência. Peço-lhe um balanço.
Numa perspetiva pessoal, de forma muito satisfatória. Quando cheguei, o primeiro grande desafio era ganhar o ciclo do investimento. Utilizando dados objetivos, este ciclo de investimento foi ganho para o país, foi ganho para a AICEP.

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