Pensar nos juros fora da caixa

O atual movimento inflacionista é diferente de outros que ocorreram ao longo dos últimos 100 anos. E não deriva do excesso de liquidez.

A subida exponencial dos juros pelo Banco Central Europeu (BCE) é, na ótica do mainstream, um processo natural. É, digamos assim, a ditadura da política monetária. Mas vale a pena pensar um pouco fora da caixa, independentemente dos maiores cérebros considerarem que o combate à inflação se faz pela subida dos juros, ou seja pela redução do consumo.

Ouvimos dirigentes políticos como o presidente francês, Emmanuel Macron, ou a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, e entre nós, o primeiro-ministro António Costa a criticarem os possíveis novos aumentos das taxas de juro pela Autoridade europeia. Por seu lado, a presidente do BCE, Christine Lagarde responde às criticas declarando: “Teremos de fazer o que tivermos de fazer”, ou seja, perspectiva-se uma nova subida de juros antes do final do ano e depois outra no início do ano, segundo analistas.

Azad Zangana, economista da gestora Schroders, ainda recentemente afirmava que o BCE tinha dúvidas sobre a sua política, sendo que a expectativa é de que o próximo aumento de juros não signifique mais 100 pp de subida, mas apenas 75 pp, ou seja, fixaria a taxa diretora nos 2,75%, ainda longe dos 4% da congénere norte-americana, a Fed.

No entanto, a questão que merece reflexão é a perceção que os políticos têm deste movimento inflacionista, diferente de outros que ocorreram ao longo dos últimos 100 anos. A atual situação não deriva do excesso de liquidez no sistema financeiro – em que seria necessário “secar” dinheiro – mas sim da especulação com a energia, os transportes e os alimentos numa economia de guerra.

No atual padrão, para Portugal, até pode significar inflação a subir para os 12% a 14% e desemprego a duplicar para 12% no início do ano. Isto tudo porque as PME e a classe média que têm habitação hipotecada irão asfixiar. A subida de juros com o imposto encapotado que é a inflação significa quebras acentuadas do poder de compra, redução do consumo, corte na criação de empresas e de empregos e uma recessão acelerada.

Em toda a Europa, os números de crescimento ainda enganam, pois temos os motores da economia europeia a crescerem ligeiramente no 3º trimestre de 2022 e a zona euro a apresentar um crescimento global de 0,2%, em termos anualizados. Mas os dados estão lançados e a recessão irá emergir.

Lembremos que o BCE para além de subir juros, também reduziu as compras de dívida dos bancos a nível do instrumento TLTRO, o que significa menos liquidez nos mercados financeiros. Ora, se o problema é a inflação de guerra, mesmo com subida de juros a inflação irá manter-se, salvo se se criar uma depressão económica e um desemprego galopante, algo que nenhuma sociedade quer mas que poderão ter de enfrentar com as atuais soluções políticas.

A população, nomeadamente a portuguesa, está fortemente exposta aos indexantes Euribor nos créditos hipotecários. Serão milhões de agregados a viver entre o muito mau e a sobrevivência.

Os políticos terão de trabalhar no sentido de criarem condições para contrariar a subida do custo do dinheiro com a injeção de fundos em PME, porque são as que criam empregos e pagam impostos, e aqui o papel do Banco de Fomento é crítico.

A Europa, toda ela, quer queiramos quer não, está a um passo da recessão. E a reconstrução, via um novo Plano Marshall, não pode envolver apenas a Ucrânia. Tem de envolver toda a zona euro, a bem da preservação do bem-estar social da atual e próxima geração.

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