Personalidade do ano: Mário Centeno

Mário Centeno, o “Ronaldo das Finanças”, chegou à presidência do Eurogrupo no início de 2018.

Apresentado pela imprensa internacional desta forma elogiosa, ele é o primeiro presidente deste órgão com origem num país do sul da Europa e, em particular, de um país alvo de uma operação de resgate financeiro. Ao longo deste tempo, o ministro das Finanças português, adotou sempre um discurso positivo. “Depois de ter estado focado, durante muitos anos, na gestão de crises, o Eurogrupo pode finalmente virar todas as suas atenções para o processo de completar a arquitetura da UEM [União Económica e Monetária]”.

Se a logística diária de Centeno é exigente, a tarefa política não é menos árdua. Conseguir consensos numa Europa ainda a sentir os efeitos da crise e dos polémicos programas de ajustamento não se adivinhava fácil. O ministro assumiu que ambicionava conciliar os objetivos de consolidação orçamental com um crescimento inclusivo e a criação de emprego. “As nossas regras orçamentais não são um fim em si mesmas, visam criar as condições para um crescimento económico sustentável e facilitar o funcionamento da União Económica e Monetária”, disse no mês passado. Aliás, um ano depois de ter sido eleito como presidente do Eurogrupo, Mário Centeno alcançou um acordo que permite avançar com a reforma da Zona Euro. No entanto, nem tudo foi perfeito. O governante protagonizou um vídeo saudando o fim do programa de assistência à Grécia mas o seu conteúdo tem sido bastante atacado.A primeira crítica feroz veio de Yanis Varoufakis, o antigo ministro das Finanças grego, que o comparou à “propaganda norte-coreana”.

“Obsessão pelo défice”

A “obsessão” pelos números do défice foi uma expressão que ouviu de vários líderes partidários. No dia da conferência de imprensa do Orçamento do Estado, e quando questionado se a previsão de défice é de 0,2% para agradar aos parceiros de esquerda do executivo salientou que “o défice não é uma representação gráfica e não é de 0,1% ou de 0,2% para agradar a uns ou a outros”. Já questionado se este seria a última proposta orçamental que apresentaria enquanto ministro das Finanças, para se perceber se faria parte de um próximo executivo, Mário Centeno ironizou: “Este foi o último Orçamento do Estado que apresentei porque acabei de o apresentar”. O ministro deixou assim em aberto detalhes quando ao seu futuro político.

Nascido em Olhão, passou a infância em Vila Real de Santo António e mudou-se aos 15 anos para Lisboa, onde, com os três irmãos, continuaria os estudos. O curriculum e a licenciatura em Economia pelo Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), concluída com 16 valores, valeram-lhe a entrada em Harvard. No entanto, nunca esqueceu as raízes. Aliás, o ministro das Finanças foi mesmo homenageado em Vila Real de Santo António, no âmbito do Dia da Fundação da Cidade, com a Medalha de Mérito Municipal pelo seu “brilhante percurso académico” e “carreira internacional de sucesso” na área da Economia.

Filho de uma funcionária dos CTT e de um bancário, regressou a Lisboa com a mulher e os três filhos em 2000, onde entrou no Departamento de Estudos Económicos do Banco de Portugal, tendo sido nomeado diretor-adjunto do departamento quatro anos depois, cargo que ocupou até ao final de 2013.

“Harvard foi uma revolução na minha forma de ver a economia em quase tudo”, disse Manuel Centeno, de 52 anos, numa entrevista à Visão. “Tornei-me muito mais sensível à relação entre a economia e as pessoas”. É que, salientou, “por vezes, a macroeconomia esquece-se que do outro lado estão as pessoas”. Segundo os amigos mais próximos do ministro, os choquinhos fritos com tinta são uma das especialidades gastronómicas que o próprio  gosta de cozinhar. É benfiquista e, além do futebol, gosta de rugby, que jogou na Faculdade.

Artigo publicado na edição semanal do Jornal Económico de 28 de dezembro de 2018. Para ter acesso em primeira mão a todos os nossos conteúdos premium, aceda aqui ao JE Leitor.

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