Pfizer e a lição para Portugal

A Pfizer é a mais recente vítima do perfume de sedução fiscal irlandês.


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Quantas vezes não ouvimos empresários e executivos portugueses comentarem, muitas vezes em vão, que necessitam que o governo conceda uma política fiscal suficientemente atraente para as empresas? Muitos pensam que isto não passa de mais um queixume capitalista incubado ao longo de anos e de cariz meramente unilateral. Será mesmo assim? O maior negócio da história da indústria farmacêutica prova o contrário.

A Pfizer é a mais recente vítima do perfume de sedução fiscal irlandês, o qual, imune às críticas institucionais de outras praças financeiras (e políticas) menos esclarecidas, conquista mais um membro de peso. Com o argumento de que a aplicação de uma taxa significativa de contribuição fiscal para as empresas é o caminho mais certo para a subsidiação da inovação necessária à sobrevivência destas, por alimentação de riqueza nos cofres do estado, estas economias tropeçam numa lógica de procura errada: é o investimento na atração (redução) fiscal que multiplica o investimento das empresas na economia local e não o contrário. Isto é, não devemos esperar “lotação esgotada” quando o preço elevado dos bilhetes de cinema impossibilita “jantar fora” ou a “compra de pipocas”.

A fusão “reversa” da americana Pfizer com a irlandesa Allergan motivada por eventuais interesses fiscais é com certeza um lembrete para que os atuais governantes do nosso país assegurem que o sistema de impostos corporativo seja atraente. A atração não é meramente estética e produz resultados funcionais ao longo de toda a cadeia de valor. Vejamos (e aprendamos) com o exemplo da – outrora – americana: ao mover a sede dos Estados Unidos para a Irlanda, o CEO da recém-batizada Pfizer PLC, Ian Read, move não só uma fatia considerável de dividendos fiscais para longe dos cofres norte-americanos, como também eventualmente as principais posições estratégicas e inerente antourage, salários, ações comunitárias, responsabilidade social corporativa, parceiros estratégicos funcionais e, sobretudo, goodwill. Mais do que mover, fortalece a economia irlandesa, não só a curto prazo, como e sobretudo, posiciona a estratégia de crescimento futuro da maior empresa farmacêutica do mundo (em vendas líquidas) ancorada na Irlanda, fazendo com que esteja exposta a novos e variados incentivos fiscais (em adição aos escassos 12,5% de imposto corporativo já garantidos). Esta exposição não só atrai, mas, se bem apropriada pelo governo irlandês, pode perpetuar investimentos futuros do gigante farmacêutico no país e, porque não, vizinhos. Migração de talentos, fortalecimento da indústria de hotelaria, companhias aéreas, parceiros logísticos locais, entre tantos outros, serão com certeza algumas das consequências de uma estratégia inteligente de apropriação do valor criado pelo governo hospedeiro.

Resta aprender com a lição do Governo irlandês que o barato sai caro e que todo o cliente, também compra por preço. Portugal, com uma localização tão ou mais priveligiada que a Irlanda e o dobro da população, pode e deve continuar a atrair empresas estrangeiras. Faz bem à saúde e os nossos filhos agradecem.

Por Diogo de Sousa-Martins,
Professor convidado da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa. É licenciado em Ciências Farmacêuticas, Pós-graduado em Competitive Intelligence, MBA em Marketing, Mestrado em Marketing Estratégico e Doutorado em Oftalmologia

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