Portugal em peregrinação

Assinalam-se este ano os 400 anos do livro “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto. Estas viagens em terras longínquas, mais espetaculares do que o imaginário humano de então poderia conceber, levaram a que o autor fosse, por vezes, denominado Fernão Mendes Minto. Injustiça feita a um autor e a uma obra que abriam horizontes, mas para […]

Assinalam-se este ano os 400 anos do livro “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto. Estas viagens em terras longínquas, mais espetaculares do que o imaginário humano de então poderia conceber, levaram a que o autor fosse, por vezes, denominado Fernão Mendes Minto. Injustiça feita a um autor e a uma obra que abriam horizontes, mas para além do que poderia ser esperado e recebido na vida daqueles que o liam.

Este aniversário de quatro séculos de uma das obras mais emblemáticas da literatura portuguesa tem sido discreto. Contudo, um livro editado pela Gradiva e da autoria de Guilherme d’Oliveira Martins (Presidente do Tribunal de Contas e do Centro Nacional de Cultura), intitulado “Na senda de Fernão Mendes Pinto: percursos dos portugueses no mundo”, retoma a questão da peregrinação e da relação dos portugueses com o mundo. É provável que o problema da obra-prima de Fernão Mendes Pinto seja exatamente esse: o de ter traçado para os portugueses um destino de venturas e desventuras numa época em que a palavra internacionalização não fazia parte do vocabulário português.

Essa viagem contínua, peregrinando em busca de novos mercados e oportunidades, aclamada hoje, era aquilo que se censurou na obra deste autor. Pinto falava dessa experimentação contínua do mundo que, fruto da saída dos portugueses das suas fronteiras, deixou marcas naquilo que hoje é considerada a identidade nacional. Oliveira Martins pega nesse traço identitário e elenca portugueses de hoje e de ontem que se espraiaram mundo fora. Afinal, aquilo que atualmente se pede à economia e aos portugueses, é parte daquilo que foi sendo feito ao longo dos séculos.

Pode ser que Fernão Mendes Pinto estivesse à frente do seu tempo. Para além de peregrino em terra alheia, lançou um olhar crítico e atento ao que se passava. Foi para além da descrição, criou uma narrativa que mostrava o que até então era invisível. Arriscou e denunciou aquilo que viria a ser parte das características do colonialismo moderno, debaixo de estados nacionais centralizados, apoiados científica e tecnologicamente. Fernão Mendes Pinto nomeou os vícios de demasiada ambição e pouco controlo sobre a vontade de lucrar. Hoje, depois de tantas peregrinações, os portugueses já deveriam ter aprendido que a ganância pode deitar tudo a perder. E não tem sido esta crise, também um fruto da ganância sem controlo? Portugal continua, pois, em peregrinação, porque parece ainda não ter encontrado a resposta adequada para os seus desafios.

Cátia Miriam Costa
Investigadora do Centro de Estudos Internacionais, ISCTE – IUL

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