Marcelo diz que Portugal está “aquém do que devia” por resistir “às grandes ruturas”

O Presidente da República defendeu esta terça-feira que Portugal hoje “está aquém” do que devia por resistir “às grandes ruturas” e previu que, quem não for capaz de as fazer, irá dar “o lugar a outros”.

“Nós ainda estamos aquém do que deveríamos ser por um problema cultural, por atavismo, porque resistimos aos grandes saltos, às grandes ruturas, às grandes mudanças. Preferimos o compromisso, preferimos aquilo que é, em cada momento, o pragmatismo, a alguns momentos mais de rutura”, diagnosticou o Presidente da República num discurso no museu dos Coches, em Lisboa, no âmbito da cerimónia de encerramento da exposição “Primeira Pedra”.

O chefe de Estado salientou que Portugal tem uma história de, mesmo quando foi “muito rico”, ter sido “sempre pobre”, dando o exemplo dos testamentos dos reis D. João II e D. Manuel I que, apesar de terem liderado o país durante a sua “expansão por continentes e oceanos”, alertavam os seus sucessores para “a dramática situação do tesouro público” e para a “gestão do erário público, porque o país vivia muito acima das suas possibilidades”.

“Isto foi no topo: tínhamos acabado de percorrer o caminho para a Índia, estávamos presentes em todos os continentes. (…) Mesmo aí, tínhamos uma pobreza estrutural muito grande, um atraso cultural muito grande, tínhamos traços mais de país pequeno e pobre, do que país grande e rico. E, no entanto, éramos grandes e ricos em talentos os mais variados”, referiu.

Para Marcelo Rebelo de Sousa, a exposição “Primeira Pedra” mostra que Portugal continua a ter esses talentos e que, em “praticamente todas as áreas”, tem personalidades que estão entre as melhores do mundo.

Apelando a que se multipliquem este tipo de iniciativas, Marcelo Rebelo de Sousa deixou um elogio ao ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, que o ouvia na plateia.

“Vejo com alegria no novo ministro da Cultura – e estou à vontade para o dizer, porque sou muito avaro nesses cumprimentos em abstrato, e agora, em particular ultimamente, em concreto -, (…) uma compreensão, que vi esporadicamente no passado, nalgum ou noutro ministro da Cultura, (…) [de] que é preciso introduzir ruturas criativas”, afirmou.

Perante vários artistas que participaram na exposição “Primeira Pedra” – como o artista Vhils -, Marcelo Rebelo de Sousa salientou que a cultura não “é uma realidade de um ministério”, mas antes de um país.

“Quando o Ministério da Cultura introduz essas ruturas, as ruturas acabam por se projetar em toda a realidade nacional. Esta exposição é uma dessas ruturas, há um antes e há um depois”, destacou.

Marcelo Rebelo de Sousa defendeu assim que o “que é preciso é rutura”, e deixou um aviso: “Quem for capaz de a fazer, fá-la-á, quem não for, naturalmente, como aconteceu no 25 de abril, dará o lugar a outro”.

O chefe de Estado proferiu este discurso depois de ter ouvido vários apelos do presidente da Assimagra, Miguel Gouvão, que pediu a Marcelo Rebelo de Sousa que, nas suas intervenções, reforce que Portugal tem um “problema estrutural”, que “não se resolverá sem a alteração radical” do seu modelo de desenvolvimento.

“O défice e a dívida, sendo graves, são apenas parte do nosso problema. E é fácil concluir, senhor Presidente, que estamos perante um desafio gigantesco, quando verificamos que Portugal é um dos países da UE com rendimentos mais baixos, a nossa produtividade é 76% da média da UE, temos um Estado que consome cerca de 50% da riqueza criada. 19% dos portugueses são pobres”, alertou o presidente daquela associação, que representa a indústria portuguesa dos recursos minerais.

A exposição “Primeira Pedra”, que fecha ao público este domingo, juntou 77 obras originais de vários artistas portugueses e internacionais, como Ai Weiwei, Álvaro Siza Vieira, Eduardo Souto Moura ou Vhils.

Segundo um comunicado da Assimagra, a exposição permitiu convocar “o tecido económico e o setor cultural – a arquitetura, o ‘design’ e as artes plásticas – reunindo 36 autores de 14 países e 28 empresas nacionais em torno da pedra portuguesa”, com obras produzidas em mármore, calcário, granito, xisto e ardósia.

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