“Portugal precisa que as empresas farmacêuticas façam cá os ensaios clínicos”, diz diretora-geral da Janssen

Filipa Mota e Costa acredita que a área dos ensaios clínicos poderia ser uma “oportunidade de desenvolvimento” para o país, que já tem a infraestrutura necessária, mas que falta organização e vontade política para tentar acompanhar países como Espanha.

A diretora-geral da Janssen Portugal, Filipa Mota e Costa, considera que Portugal poderia apostar na área dos ensaios clínicos, uma vez que possui a infraestrutura e talento para tal, mas que falta vontade política e, sobretudo, organização.

A responsável máxima da farmacêutica em Portugal falou esta quarta-feira no Fórum Indústria Farmacêutica, organizado pelo Jornal Económico, num painel que pretendia debater a importância da inovação e desenvolvimento para o futuro da indústria farmacêutica.

Sobre se Portugal tem reunidas as condições para se tornar uma referência na área dos ensaios clínicos, Filipa Mota e Costa é assertiva: “Acho que neste tema, não temos que ambicionar ser referência. Estamos tão atrás, que qualquer coisa que fazemos é para melhorar, e isso já é bom”, considera.

Para Filipa Mota e Costa, há que inverter a mentalidade: “Ao contrário de muito do que se ouve em Portugal, o que é preciso é primeiro investir e depois colher os frutos. O investimento deverá ser nas infraestruturas hospitalares – mas esse investimento já existe. O mais difícil está feito”, garante.

A líder da Janssen avisa que o país tem vindo a perder competitivdade na Europa, face a países como a Bélgica, Suíça, ou outras nações nórdicas e de leste, “que nos ultrapassam”, sublinha. E não é preciso ir longe: “Espanha nos últimos 20 anos tornou-se uma referência mundial a nível de ensaios clínicos. Há empresas globais em que Espanha é o país número dois, a nível de investimento em ensaios clínicos”, reforça Filipa Mota e Costa.

Então, o que falta para Portugal contornar a sua posição no fim da corrida? “Falta organização”.

A líder da farmacêutica alerta para os aspetos burocráticos dos ensaios clínicos, sobretudo da fase de recrutamento de doentes. “Portugal falha os seus compromissos. O país compromete-se com determinado ensaio e n doentes e nalguns casos encerra-o com zero. É preciso autonomia dos hospitais para fazer os ensaios, tempo dedicado, progressão de carreira [para os investigadores] e, por outro lado organização”, considera.

“Não queremos que todos os hospitais façam ensaios clínicos, isso não é eficiente.”

Além de aproveitar a infraestrutura já existente, há que atrair empresas, que por sua vez atraem talento. “Portugal precisa que as empresas farmacêuticas façam cá os ensaios clínicos”, diz Filipa Mota e Costa. O país não alcança mais de “100 milhões de euros em ensaios clínicos. Se nos próximos quatro anos [período da legislatura] fosse capaz de duplicar… É um objetivo perfeitamente alcançãvel”, atira. “Um hospital em Barcelona tem mais ensaios clínicos do que Portugal inteiro – mesmo que dupliquemos.”

A líder da Janssen em Portugal considera ainda que “há muito talento em Portugal para estas áreas, emprego muito qualificado”, mas pede mais ação concreta da parte dos decisores: “Haja demonstração de vontade política, haja liderança, temos aqui uma oportunidade enorme para o desenvolvimento do país”, remata.

No segundo painel participou também João Norte, Market Access & Corporate Affairs da BIAL. A empresa tem mais de uma centena de trabalhadores na área de I&D, um dado louvado por Filipa Mota e Costa: “Precisamos de mais BIALs em Portugal, com mais empresas”, algo que vai contribuir para o ecossistema da indústria nacional. “Nós [Janssen] temos um departamento [em Portugal] com 20 pessoas. Fosse Portugal mais atrativo e eu poderia passar a para 100 ou 200.

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