PremiumPowell e a Fed deixam aviso: isto agora vai ser a doer

Nova subida dos juros, uma economia paralisada e o desemprego a subir. A receita da Fed promete empurrar à força a inflação para os 2%, mas ameaça matar o crescimento económico. Inflação alta teria custo superior, defende Powell.

Jerome Powell teve o seu momento “custe o que custar” esta semana. Dez anos depois de Mario Draghi ter dito que o BancoCentral Europeu (BCE) iria fazer tudo para salvar a zona euro, Powell garantiu que a Reserva Federal norte-americana está disposta a fazer tudo para reduzir a inflação para a meta de 2% nos próximos anos, mesmo perante a ameaça de os Estados Unidos entrarem em recessão.

A taxa de inflação nos EUA atingiu os 8,3% em agosto, o nível mais baixo em quatro meses. E a inflação só deverá recuar para a meta de 2% em 2025, prevê a Fed.

“Temos de deixar a inflação para trás. Gostaria que houvesse uma forma indolor de o fazer, mas não existe”, disse o presidente da Fed na quarta-feira, após a habitual conferência de imprensa depois da decisão de política monetária.

“Elevadas taxas de juro, um crescimento mais lento e um mercado laboral a enfraquecer são tudo coisas dolorosas para o público que servimos. Mas não são tão dolorasas como restaurar a estabilidade de preços e ter de voltar para fazer tudo de novo outra vez”, afirmou Jerome Powell. “Ninguém sabe se este processo vai provocar uma recessão e, a acontecer, quão grave seria”.

O banco central norte-americano projeta um arrefecimento económico nos EUA este ano, com o PIB a crescer apenas 0,2% para depois subir para 1,2% em 2023. Já a taxa de desemprego deverá atingir os 3,8% este ano e os 4,4% em 2023.

Para o analista Filipe Garcia, a “decisão da Fed foi importante não tanto pela subida dos juros, que já era amplamente esperada, mas por três motivos. Em primeiro lugar, deu a entender que a taxa terminal deste ciclo de aperto monetário será mais alta, em torno de 4,60%. Por outro lado, clarificou a primazia do objetivo de controlo da inflação em detrimento do crescimento económico, afirmando que “não existe um caminho sem dor para domar a inflação”. Finalmente, reviu consideravelmente em baixa as previsões de crescimento (e em alta as do desemprego), admitindo os riscos de recessão”.

“Isto é importante para os mercados porque implica desde logo lidar com um contexto macroeconómico futuro mais negativo e, ao mesmo tempo, com condições monetárias mais adversas. É conhecido que as cotações subiram em muitos mercados devido à abundância de liquidez e, com as condições a reverterem-se, os ativos tendem a desvalorizar. Também as avaliações, com taxas mais altas, tendem a ressentir-se, pressionando em baixa as cotações”, de acordo com o o presidente da IMF – Informação de Mercados Financeiros.

Com a nova subida, a taxa de juro de referência aumenta para um intervalo entre os 3% a 3,25%. Mas a Fed avisou já que vão ser precisas mais subidas ainda este ano para atingir uma taxa de juro de 4,40% até ao final de 2020, e depois nova subida para atingir os 4,60 % em 2023.

Já o analista Pedro Lino destaca que a “grande alteração foi o discurso mais assertivo e firme relativamente ao combate à inflação, mesmo que à custa de uma recessão na economia. A prioridade é reduzir a inflação até ao nível pretendido dos 2% e nesse sentido os juros até fim do ano podem atingir os 4,75%-5% dependendo da divulgação dos próximos dados de inflação”.

“A Fed reviu em baixa a projeção de crescimento para 0,2% em 2022, o que significa que o ultimo trimestre de 2022 a economia americana está em recessão. Por seu turno as projeções de inflação foram revistas em alta principalmente em 2023 para os 3,1%. Estas projecções suportam o discurso da Fed que as taxas irão manter-se elevadas durante um maior período de tempo”, segundo o presidente executivo da Optimize Investment Partners.

Para o analista Marco Silva, “mais importante do que a subida dos juros de 0,75 pontos, foram as indicações vincadamente hawkish deixadas no documento relativo à reunião, assim como nas palavras de Jerome Powell na conferência de imprensa que se seguiu. Com efeito, tal como Powell alertou em maio, dificilmente o problema da inflação será resolvido sem dor, ou seja sem uma recessão económica, uma vez que não estando o gerador da inflação no controlo do banco central ou do governo, a resolução terá de ser implementada no final da cadeia de consumo, concretamente no consumo em si”.

“Não é novidade esta necessidade, aliás tem sido recorrente o ruído de mercado derivado de players importantes da opinião pública, no sentido de que o caminho acabaria por ser inevitavelmente este. Não obstante, até uma determinada fase o presidente da Fed ter falado apenas num abrandamento económico. Na realidade, mesmo na quarta-feira, Powell, quando questionado diretamente sobre a possibilidade de uma recessão, evitou utilizar essa palavra preferindo falar antes sobre um crescimento muito diminuto. No entanto deixou o indício importante, mas igualmente incontornável, de que o sector imobiliário não conseguirá evitar a recessão”, destaca o consultor da ActivTrades.

Lá fora, os analistas apontam que a Fed “entrou na ‘zona de perigo’ em termos da taxa de choque que estão a atirar para a economia dos EUA”, disse Peter Boockvar da Bleakley Financial Group, citado pela “CNN”.
Por seu turno, Mark Haefele da UBS Global Wealth Management destaca que “uma taxa de 4% é o valor mais elevado que a economia consegue aguentar, e a Fed está claramente a ameaçar aumentar as taxas de juro para lá deste nível”.

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