Preço do leite fecha vacarias e distribuição tem que “acordar”, aponta associação

O preço do leite à produção e a subida dos custos está a levar as vacarias a encerrar, podendo haver escassez deste produto, alertou a Aprolep, vincando que, quando a distribuição “acordar”, poderá já ser tarde.

“Há vacarias de grande dimensão que já fecharam e muitos produtores estão a [pensar] se fecham ou se reduzem a produção. Temos situações de produtores com água limitada por causa do regadio e outros compram silagem de milho, que está muito mais cara. Se não tiverem um preço que lhes permita pagar as despesas, a única solução é reduzir as compras e a produção”, apontou o secretário-geral da Associação dos Produtores de Leite de Portugal (Aprolep), Carlos Neves, em declarações à Lusa.

O encerramento de vacarias e a redução da produção só não é maior porque quem fez projetos de investimento tem que se manter na atividade durante cinco anos, indicou este responsável, notando que os produtores que se aproximam da reforma ou que têm outras atividades deixam este trabalho.

“Tenho conhecimento de vacarias que vão fechar e ser substituídas por projetos de produção de amêndoas”, exemplificou.

Segundo a Aprolep, esta não é uma situação recente, uma vez que já há cerca de 30 anos os pequenos produtores abandonavam a atividade, uma vez que não eram competitivos ou rentáveis.

Neste momento, com os baixos preços pagos à produção e a subida dos custos, as grandes vacarias também já estão a encerrar, podendo haver escassez de leite em Portugal.

“Receio que, quando a indústria e a distribuição acordarem, já seja tarde. Quem abandona a produção não volta a meter vacas. Não é como plantar batatas, que podemos deixar a terra em pousio e, no ano seguinte, voltamos a produzir. Quem deixa as vacas não volta”, sublinhou Carlos Neves.

Segundo a Aprolep, os produtores estão assim desiludidos e apreensivos com o futuro da produção de leite em Portugal.

“Desilusão porque vemos que, na Europa, o leite está a ser valorizado e em Portugal não. Um país que estava na média ou ligeiramente aproximado e está há 12 anos abaixo da média […]. Fomos ultrapassados pelos países do Leste, com um nível de vida inferior ao nosso”, destacou.

Em muitas vacarias de Portugal, o preço de produção ronda os 50 cêntimos, estando, atualmente, os produtores a perder “muito dinheiro”, mostrando-se “apreensivos face aos próximos meses”.

Perante este cenário, a Aprolep enviou dois pedidos de reunião à ministra da Agricultura, Maria do Céu Antunes, e um à comissão parlamentar de Agricultura, mas, até ao momento, não obteve a resposta.

No dia 01 de julho, os produtores vão reunir-se em Alcobaça, distrito de Leiria, para discutir, entre outras temáticas, este problema.

O preço do leite e de alguns derivados pago ao produtor tem subido, desde o início do ano, em Portugal, mas continua a ser um dos mais baixos da União Europeia, segundo dados do GPP e de Bruxelas.

Em janeiro, no Continente, o preço do leite comprado a produtores individuais era de 0,356 euros por litro, abaixo dos 0,405 euros registados em abril, segundo dados do Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral (GPP).

O valor do leite adquirido a postos de receção e salas coletivas de ordenha ascendeu a 0,368 euros por litro em abril, quando no primeiro mês do ano estava em 0,338 euros.

Nos Açores também se verificou a mesma tendência, com o preço pago aos produtores individuais (que possuem tanque na refrigeração na exploração e com transporte a cargo da fábrica) a passar de 0,317 euros por litro em janeiro para 0,333 euros em abril.

Por sua vez, o preço da manteiga à saída da fábrica, apresentado à semana, teve vários avanços e recuos, estando, em 06 de junho, nos 701,84 euros por 100 quilograma (kg).

Nos primeiros quatro meses deste ano, o preço do queijo flamengo à saída da fábrica, em bola ou em barra, passou de 463,19 euros por 100 kg para 504,67 euros.

Dados da Comissão Europeia revelam que o preço de leite de vaca cru atingiu, em Portugal, os 37,85 euros por 100 kg em maio, o valor mais alto, desde junho de 2008.

Porém, esse valor é o segundo mais baixo da União Europeia, apenas acima da Eslováquia (37,83 euros).

Em maio, o preço mais elevado foi registado em Malta (62,41 euros).

Entre 1996 e até maio de 2022, Portugal atingiu o valor mais elevado (39,40 euros) em novembro de 2007, tendo-se prolongado até janeiro de 2008.

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