Preconceito, memória e identidade nas cidades

Lisboa está a discutir a requalificação do jardim da Praça do Império. A Câmara decidiu lançar um concurso de ideias para o projeto de requalificação.


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Encontra-se em discussão, em Lisboa, a requalificação do jardim da Praça do Império (*). Para tal, a Câmara decidiu lançar um concurso de ideias para o respetivo projeto de requalificação.

A polémica relacionada com a requalificação do jardim da Praça do Império surgiu em virtude de ter sido anunciada a intenção de suprimir os brasões coloniais referentes às antigas “províncias ultramarinas” portuguesas que eram originalmente talhados em flores e buxo, com o argumento de serem símbolos ultrapassados…

Com rigor, vale a pena referir que os referidos brasões coloniais, a par com os demais, referentes aos distritos do continente e ilhas não faziam parte do desenho inicial (década de 40) mas foram integrados pouco depois, desde os anos 60.

Esta polémica sobre a manutenção dos brasões coloniais é apenas um episódio de vários sobre alterações no espaço público verificadas na cidade de Lisboa.

Lisboa tem uma história anterior à própria fundação da nacionalidade. Ruas, bairros, monumentos, jardins, foram persistindo ao longo da história. Estes e outros elementos constituem parte da identidade de Lisboa e são a memória visível da história da cidade e do país. A nossa história. A nossa memória. A nossa identidade.

Ao longo dos séculos, a intervenção na cidade tem provocado alterações no espaço urbano, seja físico ou na toponímia. Catástrofes como o terramoto de 1755, a expansão urbana, mas também revoluções políticas, impuseram significativas alterações em Lisboa (sem espaço para detalhar algumas referências, fica o desafio de as procurar).

No entanto, para além de modificações “catastróficas” ou “revolucionárias”, outras têm ocorrido como resultado de alguma indiferença ou passividade dos responsáveis, mas também dos cidadãos em geral, que têm permitido modificações no espaço urbano que resultam de capricho, preconceito ou até de ignorância de quem intervêm no território.

As alterações no espaço urbano devem respeitar a memória e identidade existentes. Sem impedir a renovação, as intervenções devem procurar preservar a relação dos cidadãos com o espaço público, promovendo através dessa preservação, a valorização e identidade histórica da cidade.

Nomes de ruas ou de bairros, elementos urbanos como candeeiros, bancos de jardim ou a calçada portuguesa constituem elementos de identidade do espaço e de ligação física e emocional dos cidadãos à cidade. A preservação deve ser a regra e a alteração a exceção.

No caso dos brasões do jardim da Praça do Império, a verdadeira razão (aliás assumida) para a respetiva eliminação é de caráter ideológico. Mal vai Lisboa quando está sujeita a que a sua história pretenda ser apagada ou reescrita por preconceito ideológico. Hoje são os brasões desenhados com flores que pretendem eliminar. Amanhã o que será?

António Prôa,
Vereador na Câmara Municipal de Lisboa

(*) A atual Praça do Império foi projetada por Cottinelli Telmo no âmbito da Exposição do Mundo Português. Este local teve anteriormente as designações de Praça Dom Vasco da Gama e, originalmente, Largo dos Jerónimos.

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