“Preocupações dos bancos centrais com inflação superam as com o crescimento”, diz Allianz GI

A perspetiva de que os bancos centrais não vão abandonar a sua postura mais restritiva em relação à política monetária, apesar das crescentes preocupações com o crescimento, continua a levar a uma visão cautelosa dos mercados de ações e de outras classes de ativos de risco, como as obrigações de elevado rendimento, defende a Allianz GI.

A Allianz Global Investors (Allianz GI) publicou o seu Relatório Mensal sobre Mercado de Capitais (Agosto – 2022) elaborado por Stefan Rondorf, Estratega de Investimento Sénior, Economia Global & Estratégia. Nele constata que a maioria dos bancos centrais parece estar a enfrentar o mesmo cenário atualmente, ou seja ” as preocupações com a inflação superam as preocupações com o crescimento”.

Com o título ‘Energizado’, o autor sublinha que os bancos centrais continuam a despender uma energia considerável para controlar as expetativas inflacionistas e combater a inflação persistente.

“Em julho, o Banco Central Europeu (BCE) entrou com algum atraso no comboio da subida das taxas de juro e abandonou o terreno das taxas de depósito negativas ao subir as taxas de juro em meio ponto percentual. Ao fazê-lo, introduziu precocemente um  ‘fundo falso’, por assim dizer, no ciclo de aumento das taxas de juro”, escreve Stefan Rondorf.

O BCE, com um novo instrumento, pode potencialmente intervir se as taxas de juro dos títulos do Tesouro do sul da
Europa excederem níveis fundamentalmente justificados, desde que o país em causa respeite as relevantes regras
orçamentais europeias importantes. “No entanto, na prática, a sua eficácia é, à primeira vista, questionável”, defende o autor.

Entretanto, os investidores de ações têm estado focados nos resultados do segundo trimestre. No período que antecede a época de publicação de resultados, a evolução das estimativas de lucros “pode ser descrita literalmente como energizada”. Isto, diz a Allianz GI, deve-se ao facto de as estimativas de lucros estarem apoiadas quase em exclusivo no setor da energia há meses, ao passo que o otimismo já diminuiu, sobretudo para as empresas relacionadas com o consumo.

“Em resultado do enfraquecimento dos indicadores de referência, podemos, portanto, contar com mais revisões em baixa das estimativas de lucros após a época de resultados. É provável que estas sejam incorporadas parcialmente, mas eventualmente ainda não totalmente, na queda das cotações”, considera a gestora de ativos. “Esta é uma razão pela qual se recomenda, por enquanto, uma posição cautelosa nos mercados de capitais. Dito isto, todas as crises do passado também abriram espaço a novas oportunidades”, acrescenta Stefan Rondorf.

No que toca ao mercado de ações e obrigações, a Allianz GI diz que “os crescentes riscos de recessão em ambos os lados do Atlântico estão agora a ser debatidos por um vasto leque de participantes do mercado, pelo que uma recessão não seria inesperada”.

Dois fatores podem, ainda assim, impedir uma recessão, defende a Allianz GI. O primeiro é os consumidores serem resilientes – embora os estudos de opinião sugiram que os consumidores estão menos otimistas com a perda do poder de compra, continuam dispostos a gastar as poupanças acumuladas durante a pandemia de forma bastante generosa ou a beneficiar de um mercado de trabalho bastante robusto. Depois, uma forte recuperação temporária do crescimento na sequência da abordagem “Covid-Zero” na China.

A perspetiva de que os bancos centrais não vão abandonar a sua postura mais restritiva em relação à política monetária, apesar das crescentes preocupações com o crescimento, continua a levar a uma visão cautelosa dos mercados de ações e de outras classes de ativos de risco, como as obrigações de elevado rendimento, defende a Allianz GI.

As perspetivas para os mercados obrigacionistas apresentam-se cada vez mais equilibradas, pois embora o abrandamento económico favoreça as obrigações governamentais (de base), um aumento das taxas de juro mais forte do que o esperado continua a ser plausível nos mercados monetários, acrescenta a gestora.

A reter há o facto de “devido às perdas cambiais das últimas semanas, as valorizações nos mercados de ações tornaram-se globalmente mais moderadas e alguns mercados fora dos EUA podem agora ser considerados favoráveis”. Mas atenção que “quanto mais persistente for a inflação e mais restritiva for a política monetária, maiores serão os obstáculos para as valorizações”.

A Allianz GI defende que, em termos de setores, os investidores de ações já se posicionaram de forma bastante defensiva, isto é, em setores que são menos cíclicos. No entanto, um maior envolvimento em setores cíclicos parece prematuro nas atuais circunstâncias.

A ampla diversificação com foco nas ações de qualidade caraterizadas por fortes balanços e um poder de fixação de
preços parece estar na ordem do dia. “Isto pode também incluir investimentos temáticos, por exemplo, a segurança energética e alimentar (Food Security), a cibersegurança e empresas que beneficiam particularmente da luta contra as alterações climáticas”, acrescenta.

Quanto às Obrigações, a Allianz GI lembra que “após o longo período de taxas de juros nominais negativas, a
repressão financeira continua agora com uma fase de taxas de juros reais negativas”.

“Do lado das obrigações, são cada vez mais as expetativas de que a Fed continuará o seu curso de subida das taxas de juros de modo a acabar com as expetativas de inflação, enquanto o BCE só recentemente iniciou o seu ciclo de subida das taxas de juros. Ao mesmo tempo, a redução dos empolados balanços dos bancos centrais está a começar. Ambos os fatores são suscetíveis de continuar a pesar nos mercados de obrigações”, refere a sociedade gestora de ativos.

Os mercados monetários nos EUA já preveem que o pico do ciclo de aumento dos juros da Fed se verifique por volta do primeiro trimestre de 2023.

Ora, diz a Allianz GI, as taxas de inflação devem atingir o seu pico nos próximos meses, mas os fatores persistentes da inflação, tais como salários e rendas, deverão exigir uma contração mais firme da política monetária.

Sobre o novo “Instrumento de Proteção da Transmissão” que confere ao BCE uma grande flexibilidade no apoio aos devedores do sul da Europa porque, acima de tudo, não existe restrição de volume, a Allianz GI diz que “seria desejável uma avaliação da situação por parte de várias instituições antes da ativação do instrumento”.

“Uma questão central deverá ser quando considerar que ocorre um aumento fundamentalmente injustificável dos rendimentos das obrigações. Resta saber se o instrumento se revela exequível e se resiste a uma revisão jurídica”, defende a Allianz GI.

Nas commodities, a gestora considera que “embora a crise energética europeia tenha levado os preços do gás relevantes para a Europa a novos recordes nos mercados de futuros, os preços de muitas outras matérias-primas,
incluindo do petróleo, diminuíram recentemente. Isto reflete, por um lado, uma menor procura por parte da China durante os confinamentos dos últimos meses e, por outro, um abrandamento económico observável a nível global. O que, por sua vez, deve aliviar as preocupações com a inflação.

“Mesmo assim, após anos de baixo investimento nas capacidades de produção, existe uma oferta limitada de
várias matérias-primas face a uma procura que permanece forte, pelo menos parcialmente. É provável que muitos metais, como o cobre, permaneçam estruturalmente apoiados pela procura devido à eletrificação da mobilidade e à necessária modernização das redes elétricas”, conclui a Allianz GI.

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