Presidente da União Africana: o continente é ‘vítima colateral’ da guerra na Ucrânia

Milhões de africanos foram empurrados para a pobreza extrema pelo COVID e enfrentam custos crescentes por causa da guerra na Ucrânia. Moussa Faki Mahamat, o presidente daquela estrutura, não tem boas razões para comemorar o Dia de África.

O presidente da Comissão da União Africana, Moussa Faki Mahamat, disse esta quarta-feira que a África tornou-se uma “vítima colateral” do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, afundando ainda mais a capacidade do continente, já depauperada pela Covid-19, em cumprir o “enorme potencial” que todos lhe reconhecem. Uma mensagem desassombrada – e que vai no mesmo sentido do que tem dito António Guterres, secretário-geral da ONU, desde há vários meses.

A mensagem marca de forma sombria o Dia da África, comemorado a 25 de maio, o aniversário da fundação da Organização de Unidade Africana (OUA, em 1963), que se tornou a União Africana em julho de 2002.

Moussa Faki Mahamat disse ainda que “ao perturbar profundamente o frágil equilíbrio geopolítico e geoestratégico global, também lançou uma luz dura sobre a fragilidade estrutural das nossas economias”.

“O sinal mais emblemático dessas fragilidades é a crise alimentar após os distúrbios climáticos, a crise sanitária do Covid-19, hoje amplificada pelo conflito na Ucrânia”, acrescentou. “Esta crise é caracterizada por uma oferta mundial cada vez menor de produtos agrícolas e uma inflação crescente dos preços dos alimentos”.

A ONU tem chamado a atenção para esse mesmo facto: se a guerra na Ucrânia não parar a (muito) breve trecho e as cadeias de fornecimento não forem repostas o mais rapidamente possível (e demorará sempre na escala de anos), o continente mais pobre do planeta ficará ainda mais pobre e colocará uma parte substancial da sua população já não no limiar da pobreza, mas no limiar da sobrevivência.

Milhões de pessoas em África, que tem uma população estimada de 1,3 mil milhões, foram empurradas para a pobreza extrema pela pandemia e agora pelo aumento do custo da alimentação, causado em parte pelas interrupções relacionadas com a guerra.

Recorde-se que a Rússia e a Ucrânia produziam aproximadamente um terço do trigo e da cevada globais e dois terços das exportações mundiais de óleo de girassol. O conflito danificou a infraestrutura marítima e agrícola da Ucrânia, e isso vai limitar a sua produção agrícola durante anos, mesmo que a guerra acabasse amanhã, enfatizou a ONU num relatório recente.

Mahamat recordou, por outro lado, disse que a África continua envolvida numa luta incessante contra “o terrorismo, o extremismo violento e o crime transnacional – tráfico de seres humanos, drogas e armas”.

A declaração do presidente da União Africana surge no momento em que o órgão a que preside inicia uma cimeira de três dias na Guiné Equatorial – à qual Guterres enviou uma mensagem: “a guerra na Ucrânia está a criar uma tempestade perfeita para os países em desenvolvimento, especialmente na África”. “Esta crise está a resultar em custos crescentes de alimentos, energia e fertilizantes, com consequências devastadoras na nutrição e nos sistemas alimentares, tornando ainda mais difícil para o continente mobilizar os recursos financeiros necessários para investir no seu povo”.

Mas nem tudo era desassossego na mensagem do secretário-geral da ONU: reconhecendo África como “um lar de esperança” e saudando a “enorme promessa e potencial deste continente diversificado e dinâmico”, Guterres lembrou que que há perspetivas positivas. A “crescente população jovem da África e iniciativas como a Área de Livre Comércio Continental Africana, a Década da Inclusão Financeira e Económica das Mulheres e a visão da União Africana para o futuro”, são motivos de esperança.

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