Presidente do Irão tenta acalmar protestos, mas tensão interna não abranda

Ebrahim Raisi admite fraquezas e deficiências na república islâmica, mas repete a versão do líder supremo Ali Khamenei de que os inimigos de Teerão estão por trás da agitação, que já provocou quase 100 mortos.

O presidente iraniano Ebrahim Raisi apelou esta terça-feira à unidade nacional e tentou acalmar a raiva contra o Governo do país, que se manifesta há mais de duas semanas. Raisi reconheceu que o Irão tem “fraquezas e deficiências”, mas repetiu a linha oficial de que a agitação desencadeada no mês passado pela morte de uma mulher de 22 anos sob custódia da polícia da moralidade foi nada menos que uma trama gizada por inimigos do Irão.

“Hoje a determinação do país visa a cooperação para reduzir os problemas das pessoas”, disse Raisi. “Unidade e integridade nacional são necessidades que tiram esperança aos nossos inimigos”. O aiatola Ali Khamenei culpou os Estados Unidos e Israel por incitarem a agitação.

Os protestos, que surgiram em resposta à morte de Mahsa Amini, envolveram dezenas de cidades em todo o país e evoluíram para o desafio mais generalizado à liderança do Irão desde há décadas.

As forças de segurança do Irão tentaram dispersar as manifestações, mas os confrontos violentos não param e a polícia já terá morto pelo menos 41 pessoas – o Iran Human Rights, com sede em Oslo, fala em 92 mortos. A Amnistia Internacional confirmou 53 óbitos.

Como o novo ano letivo começou oficialmente esta semana, as manifestações espalharam-se rapidamente para os campus universitários, considerados a base da contestação ao regime.

A Universidade de Tecnologia Sharif, em Teerão, tornou-se um campo de batalha no domingo, quando as forças de segurança cercaram o campus e dispararam gás lacrimogéneo contra manifestantes que estavam escondidos num estacionamento, impedindo-os de sair. Na altura, a polícia prendeu centenas de estudantes.

Segundo os jornais, os protestos também tomaram conta das escolas de ensino médio, segregadas por género, em todo o Irão, com grupos de jovens mulheres tirando os obrigatórios hijabs.

A resposta das forças de segurança do Irão provocou uma ampla condenação global. Na segunda-feira, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, regressou ao tema, que já tinha antes abordado, dizendo que o seu Governo está “muito preocupado com os relatos da intensificação da repressão violenta a manifestantes pacíficos no Irão, incluindo estudantes e mulheres”.

“Esta semana, os Estados Unidos vão impor mais custos aos responsáveis pela violência contra manifestantes pacíficos”, disse Biden em comunicado. “Continuaremos a responsabilizar as autoridades iranianas e a apoiar os direitos dos iranianos de protestarem livremente”.

Por seu lado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico convocou o embaixador iraniano em Londres. “A violência contra os protestos no Irão protagonizada pelas forças de segurança é realmente chocante”, disse James Cleverly.

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