Presidente Donald Trump: “surpresa”, “perigosíssimo” e “momento novo”

Esperava-se este resultado das eleições americanas? O Jornal Económico contactou figuras da Política e Economia nacionais para perceber. Leia aqui algumas reações.

REUTERS / Carlo Allegri

José Fontes, politólogo

Para o doutorado em Ciências Políticas José Fontes, não só o desfecho das eleições presidenciais foi uma surpresa, como todo o processo de seleção de Donald Trump no partido Republicano. “Acho que vou foi uma grande surpresa, mas as eleições têm esse campo e essa margem de nos surpreenderem. Eu creio que a nomeação do Trump e a escolha dele para candidato republicano já foi de alguma forma uma surpresa”, realça.

O politólogo alerta para a falta de entendimento e interpretação da generalidade dos eleitores por parte do sistema e de Hillary Clinton. “Sobretudo Hillary e o sistema não conseguem interpretar o sentimento da maioria da população e isso é grave”, destaca.

“Eu acho que Donald Trump fez mais essa leitura [das ambições e dos problemas do eleitorado] e considero que o sistema político tradicional é que não o soube fazer”, diz José Fontes. Em relação ao novo presidente americano, o politólogo sublinha o “discurso e liturgia não tradicionais”, levando a que mensagem dele chegasse a mais pessoas.

De forma a colmatar os “anticorpos” de Hillary Clinton e fazer face a essa questão, José Fontes indica que “se calhar Bernie Sanders teria sido um melhor candidato”.

Viriato Soromenho Marques, professor universitário

Quando é que os americanos começaram a focar o olhar em Trump? Viriato Soromenho Marques esclarece que “sobretudo a partir da revelação que o FBI tinha voltado a investigar a questão dos emails, notou-se de facto uma mudança da opinião pública americana”.

Comparando com o Brexit, o professor universitário afirma que “o que aconteceu nessa altura foi justamente um ceticismo crescente por parte de toda a gente incluindo os analistas nas sondagens”. Ainda que sejam apenas instrumentos, Viriato aponta que “os eleitores, tanto os que apoiaram o Brexit como os que deram vitória a Trump, são novos, pessoas que têm muita relutância a participar neste tipo de sondagens”.

Quanto aos mercados, Soromenho Marques refere que estão a reagir porque “não sabem o que é que Trump vai fazer a seguir, nem ele sabe o que vai fazer”. Viriato acrescenta que “foi uma vitória perigosíssima, que temos de perceber como é que aconteceu”.

António Saraiva, presidente da CIP

No que diz respeito às últimas sondagens, que atribuíam a vitória a Hillary – ainda que com ligeira diferença –, António Saraiva sublinha que são “falíveis”. “O resultado daqueles que respondem às sondagens são uma pequena amostra de vontade e, pura e simplesmente, o universo daqueles que foram inquiridos não era representativo o suficiente e daí esta distorção entre aquelas sondagens que fizeram e o número de pessoas a quem elas responderam e a realidade”.

O presidente da Confederação Empresarial de Portugal afirma que “de alguma maneira estamos perante uma surpresa”. O representante dos patrões considera que, independentemente do “mérito da democracia e da vontade que o povo americano demonstrou”, há alterações no mundo que foram fatores decisivos, como “o regresso a populismos no momento em que a revolução tecnológica coabita com esses mesmos populismos e gera fenómenos complicados”.

Na opinião de António Saraiva, as redes sociais e a revolução tecnológica, aliadas ao regresso de algum populismo, acabam por “gerar surpresas como aquela que esta noite aconteceu nos Estados Unidos da América”.

Sobre o impacto nos mercados, o presidente da CIP garante que “é um momento novo ao qual se vão ter de se adaptar”. A Humanidade sempre se adaptou aos fenómenos”, acrescenta.

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