Primeira mulher no curso de submarinista não quer “tratamento especial”

Começou esta semana o curso de especialização em submarinista que, pela primeira vez na história da Marinha Portuguesa, conta com uma mulher. Noémie Freire diz que não se “assusta”.

Horta Pereira/Portal da Marinha

Chama-se Noémie Freire, tem 29 anos de idade e acaba de se destacar como a primeira mulher admitida no curso de submarinista da Marinha Portuguesa. Desde há cerca de seis anos que a Marinha Portuguesa passou a dispor de submarinos com condições logísticas e de habitabilidade que permitem responder aos requisitos de privacidade (quer para homens, quer para mulheres), mas só no presente ano de 2017 é que decidiu incentivar as mulheres (que representam cerca de 11% do total de membros das Forças Armadas) a concorrerem à especialidade.

Entre as quais Freire, auxiliar de navegação que decidiu concorrer ao curso após uma visita ao submarino “Arpão”, em março, a convite da Marinha Portuguesa. Ao ser admitida, Freire põe fim a uma exclusão centenária (o primeiro submarino da Marinha Portuguesa, denominado como “Espadarte”, entrou ao serviço em 1913).

Selecionada entre 20 militares concorrentes

As provas de seleção para o curso tiveram início em meados de outubro. Concorreram duas dezenas de militares, dos quais três eram mulheres. Duas foram consideradas aptas, mas apenas uma, Freire, acabou por ser admitida no curso que entretanto começou no dia 18 de dezembro.

Foi difícil superar as provas? “As provas de seleção para o curso de especialização em submarinos são sobretudo testes médicos. Todos os concorrentes passaram por uma bateria de exames, para além dos exames requeridos para o exame médico anual que todos os militares das Forças Armadas têm de realizar. Diria que a prova mais difícil e mais empolgante foi a da câmara hiperbárica, onde é simulada a descida e posterior subida, até aos 12 metros de profundidade,“ realça Freire, em entrevista ao Jornal Económico.

Até ao momento sentiu alguma forma de discriminação, positiva ou negativa, por ser mulher? “Ainda não senti nenhuma forma de discriminação, embora note em olhares de estranheza e outros de admiração,“ responde Freire. Tornar-se submarinista era algo que procurava há muito tempo, como uma vocação? Sempre teve um fascínio especial por submarinos? “Ser submarinista foi algo que apenas me cativou em março deste ano, na visita ao ‘Arpão’. Sempre tive curiosidade em navegar nos submarinos e tive esse privilégio quando naveguei quatro horas no ‘Arpão’ e isso despertou mais a minha vontade.” Quando é que tomou a decisão de concorrer? “Decidi concorrer quando o concurso abriu para militares do sexo masculino e também do sexo feminino, em abril. Até então, nenhuma mulher podia concorrer ao curso de especialização.”

Desafio pessoal e profissional

O facto de ser a primeira mulher de sempre admitida no curso tem um significado especial? E poderá de algum modo abrir essa porta a outras mulheres no futuro? “O facto de ser a primeira ‘alunaça’ é um grande desafio pessoal e profissional,“ sublinha Freire. Como assim, “alunaça”? “É como chamam aos alunos do curso de especialização, sejam oficiais, sargentos ou praças,“ explica. E prossegue: “As primeiras mulheres a ingressarem na Marinha Portuguesa fizeram-no em 1992. Quando começaram a integrar as guarnições dos navios, tinham alojamento para elas. No caso dos submarinos, não será tão fácil porque o espaço é muito confinado. Mas esta situação não me assusta. Como ‘alunaça’, dormirei no corredor, tal como os outros ‘alunaços’. Pretendo ser tratada da mesma maneira que os homens e não de maneira especial.”

“Sendo a primeira e se conseguir terminar o curso com aproveitamento, espero que as outras mulheres sigam o mesmo caminho que eu. O lugar da mulher é onde quiser e para isso basta força de vontade,“ acrescenta a candidata a submarinista.

Contudo, não será fácil. Em média, cerca de 15 a 20% dos formandos acabam por desistir do curso de especialização. Mas Freire está confiante de que vai superar todos os obstáculos, desde logo a impossibilidade de comunicar com a família (tem um filho de três anos e um marido que também é militar) durante largos períodos de tempo (sobretudo enquanto estiver debaixo de água).

Se concluir o curso com sucesso, tendo a especialidade de “Operações”, Freire poderá desempenhar funções na operação de radares, sistemas de guerra eletrónica e sistemas de deteção submarina.

“É um marco importante que nos orgulha. Mulheres na Marinha Portuguesa não é novidade, mas nos submarinos é a primeira vez e foi bem acolhida, com naturalidade”, declarou esta semana o comandante Pedro Coelho Dias, porta-voz do ramo.

Artigo publicado na edição digital do Jornal Económico. Assine aqui para ter acesso aos nossos conteúdos em primeira mão.

Recomendadas

JE Podcast: Ouça aqui as notícias mais importantes desta sexta-feira

Da economia à política, das empresas aos mercados, ouça aqui as principais notícias que marcam o dia informativo desta sexta-feira.

Preços na produção industrial caem 2% em outubro

De acordo com o Instituto Nacional de Estatística, com exceção da energia, todos os grandes agrupamentos industriais apresentaram variações homólogas inferiores às registadas no mês anterior.

PremiumAfinal, pensão de mil euros vai subir mais 60 euros do que o previsto

Tanto a inflação que conta para o aumento das pensões, como o crescimento económico superaram as expectativas, obrigando o Governo a atualizar as pensões acima do que estava previsto.
Comentários