Profissão “tem de evoluir para uma área de consultoria”

A transição tecnológica poderá impulsionar o sector, que tem deixado escapar talento. Mas para isso acontecer, há que mudar mentalidades e encarar a transformação da própria profissão, alertam líderes ouvidos pelo JE.

Na última JE Talks do Jornal Económico, sobre a profissão dos contabilistas certificados, Vítor Pinho, CEO da Cloudware, disse que os contabilistas assumem muitas vezes responsabilidades que vão além daquilo que é o seu trabalho, com o propósito de canalizar o melhor auxílio possível ao empresário. Ainda assim, refere, os profissionais passam por dificuldades crescentes.

Com o trabalho a ser desempenhado, cada vez mais, de forma remota, na sequência da pandemia, “os contabilistas têm dificuldades na vivência com os vários sistemas do Estado, na relação com a dificuldade de reporte na produtividade que têm”, quando existem tarefas que obrigam a registar, diariamente, milhares de documentos.

De facto, as tecnologias transportam a profissão do contabilista para uma realidade muito distinta das funções quê se desempenhavam há poucos anos. Vítor Pinho recorda que, com “a possibilidade de [os contabilistas] trabalharem em ambientes colaborativos online”, os documentos chegam aos escritórios de contabilidade pela via digital, o que permite acelerar os processos e gastar menos (ou não gastar de todo) folhas de papel.

O responsável reconhece que esta transição significa uma “redução de custos” para as empresas e garante que a mudança passa essencialmente por “uma questão de mentalidade”. Neste contexto, “há um conjunto de hábitos enraizados na forma de fazer contabilidade que faz com que os contabilistas estejam muito presos ao registo manual” das transações. Algo que, atualmente, tendo à sua disposição “um sistema moderno, não é necessário fazer”, garante, antes de perspetivar aquilo que o futuro pode trazer para o sector da contabilidade.

“Diria que, em breve, o contabilista vai ser um verificador de transações automáticas, feitas por um robô”, sem deixar de existir a necessidade de trabalho da parte de um colaborador, que vai, essa sim, gerar valor acrescentado para o cliente. O contabilista terá que “pegar nessa informação e criar valor na informação que o empresário realmente quer como apoio ao seu negócio.” Porém, o CEO da Cloudware refere que “os contabilistas passam horas a verificar transações bancárias”, ainda que a tecnologia já o permita fazer de forma automática, ao “associar, dentro do sistema de contabilidade, qualquer conta bancária da empresa.” Algo que vai impulsionar a possibilidade de um trabalho colaborativo, permitindo ao empresário consultar o que é necessário para o seu trabalho “sem sair do seu ambiente, que é o seu sistema de gestão”.

Trata-se de “uma mudança de paradigma de trabalho que vai mudar muito as profissões e vai mudar a forma como o contabilista prepara informação para a empresa”, reitera. Ainda assim, para que tal se concretize, é necessário que os contabilistas se adaptem aos seus clientes de forma mais perspicaz. Visto que grande parte dos colaboradores do tecido empresarial não têm competências ao nível do vocabulário usado pelos profissionais da contabilidade, há que dar passos no sentido de “aproximar a linguagem do contabilista da linguagem e dos indicadores que a empresa vê como relevantes no seu negócio. É um caminho longo a percorrer”, avisa.

Por outro lado, Ana Louro, partner da Moneris, diz que é “urgente” que a contabilidade se torne uma profissão “mais sexy, mais atrativa”, num contexto pautado pela fuga de profissionais. “Está a haver uma debandada da profissão e por isso temos de atrair de talento.” Para tal, será fulcral potenciar a importância da tecnologia com que se trabalha no sector. Nesta medida, a plataforma colaborativa utilizada pela Moneris, exemplifica, “permite-nos estar em Lisboa e fazer trabalho para outros escritórios no Porto ou no sul do país”. A profissão de contabilista, garante, “tem de evoluir para uma área de consultoria, temos de desmaterializar todo este papel, mas precisamos da ajuda da máquina do Estado para tornar isto muito mais acessível à modernização. A responsável diz ainda que têm de existir mudanças ao nível da educação e formação de futuros profissionais do sector.

“Quem forma os contabilistas tem de olhar para a sua estrutura de ensino”, sublinha, antes de referir que conta com o auxílio da Ordem dos Contabilistas Certificados para desempenhar um papel neste âmbito.

“No caso da Moneris, temos apostado em novos talentos, novos recursos. Temos trabalhado junto das universidades para trazer essas pessoas para dentro da nossa empresa, para nos ajudar neste desafio da transformação digital”, destaca, lembrando que os recém-formados trazem consigo, por norma, uma maior capacidade para aprenderem sobre “novas metodologias, novos processos de trabalho e novos softwares.”

Ainda assim, Ana Louro reforça também a importância de os clientes se adaptarem às mais recentes tecnologias e, deste modo, “facilitarem o trabalho de quem lhes quer facilitar a vida”, no que diz respeito à disponibilização de informação para apoiar na tomada de decisão e no apoio à gestão.

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