Projetos de transição climática vão sofrer com efeitos da crise

Os processos de transição climática em curso já estão a sofrer soluços no atual cenário macroeconómico e há lições a tirar. “Tudo vai custar muito mais do que se pensava”, garante o CEO da Madoqua Renewables ao Jornal Económico.

Os projetos de transição climática em curso deverão atrasar-se ou sofrer com custos acrescidos derivados do atual cenário macroeconómico. O alerta é lançado pelo CEO da Madoqua Renewables, Rogaciano Rebelo, que falou ao Jornal Económico na mais recente JE Talks. O responsável recorda que empresas e países estão a somar à fatura pandémica os custos de uma guerra em solo europeu para explicar que falar deste tema é, “obviamente, um desafio enorme”, mas sublinha que ainda assim há “muito trabalho a fazer”.

A empresa integra o consórcio internacional Madoqua Power 2x que tem um projeto de mil milhões de euros para produzir hidrogénio verde e amoníaco de origem renovável em Sines.

É certo que o conflito na Ucrânia, depois da invasão russa em fevereiro deste ano, veio evidenciar a sobredependência energética de vários países do gás natural proveniente da Rússia. Mas mesmo sem este factor em consideração, há outros efeitos macroeconómicos que entram jogo. “A subida do custo de vida, a inflação… Vamos ter de ver o impacto que tudo isto vai ter nos processos de transição climática”, garante, não escondendo que esse mesmo impacto “não vai ser fácil” de digerir.

“Estamos a desenvolver projetos há dez anos”, recorda o líder da empresa de renováveis, que neste compasso de meses viu alguns preços duplicar – um fenómeno que classifica como “surreal”, e que não é isento de efeitos na própria empresa e, por arrasto, no restante sector. “O nosso custo de vida também está a aumentar, os nossos empregados estão a ser pressurizados para pagar mais [no supermercado] pela mesma quantidade que compravam antes”, salienta. Este impacto que já se arrasta às folhas de pagamento “só vai aumentar”, sublinha.

O CEO da Madoqua Renewables diz ainda que já existem vários projetos em curso e outros tantos pensados entre 2023 e 2025, “que têm que ser construídos e desenvolvidos”, mas o atual cenário deixa a antever que “infelizmente, tudo isto vai custar mais do que se pensava”, desde logo pelos custos energéticos. Custos estes que, apesar de o próprio acreditar que venham a descer, nunca vão voltar ao valor inicial. “Isto vai baixar”, defende, “mas não para o que era antes”, reforça. De acordo com Rebelo, caminhamos para um “novo nível”.

“Quando analisamos um aumento de um preço ou um aumento de qualquer coisa na economia”, explica, “nunca baixa para o nível que era antes”. E isto aplica-se a preços, a juros, ou à inflação. O conselho que deixa às empresas é um e é simples: preparem-se e antecipem esta realidade. “Vai haver sempre um novo standard – e é o que estamos a viver agora”, considera ainda.

Mas exigir (e financiar) processos de transição climática às empresas neste contexto requer por parte dos governos um acompanhamento rigoroso, para que não se fure os pneus ao carro quando este acaba de sair do stand. “As empresas portuguesas e as empresas mundiais têm a mesma pressão para mudar e começar a transição. E se uma empresa não começou ainda a transição energética, vai sentir essa pressão ainda mais”, alerta o CEO.

Há empresas que simplesmente poderão não sobreviver a esta exigência, diz. Em Portugal, concretamente, identifica alguns problemas, mas mostra-se confiante numa nova geração de talento.

“Só agora a nova geração está a pensar neste assunto, nas novas tecnologias e processos e a pensar mais sobre o clima”, considera Rogaciano Rebelo. “Antes não havia tanto foco, mas isto vai levar um bocadinho de tempo.”

Tempo esse que, dadas as metas estabelecidas, parece escasso, mas é precioso. “Estes [próximos] cinco anos vamos ter de perder muito esforço a rearranjar a forma como estamos a pensar e a fazer as coisas”, avisa, lembrando que “ninguém sabe” qual será o verdadeiro impacto dos próximos meses.

“Estamos ainda à procura de respostas para tudo o que está a ocorrer e todas as dificuldades que temos à nossa frente estão a chegar ao mesmo tempo. Não nos dão espaço para pensar e tratar um de cada vez. Este é o problema. As empresas que já receberam apoio do PRR fizeram várias coisas para ser resilientes com este tipo de situações macroeconómicas, mas isto não vai ser a soluçaã global”, alerta Rogaciano Rebelo.

A estratégia do país e das empresas, acrescenta, deve passar pela auto-suficiência e resiliência.

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