Propaganda, outra vez

Pode parecer um tema do passado, mas a discussão em torno da propaganda voltou em força. De facto, este tema polémico nunca desapareceu do panorama dos estudos em comunicação internacional, seja esta estatal, militar ou corporativa. No entanto, desde a Nova Ordem internacional inaugurada com a queda dos regimes socialistas e com a guerra nos […]

Pode parecer um tema do passado, mas a discussão em torno da propaganda voltou em força. De facto, este tema polémico nunca desapareceu do panorama dos estudos em comunicação internacional, seja esta estatal, militar ou corporativa. No entanto, desde a Nova Ordem internacional inaugurada com a queda dos regimes socialistas e com a guerra nos Balcãs, os responsáveis políticos tinham abandonado o termo, pelo menos publicamente. Contudo, o tema voltou ao debate e tende a politizar as aproximações nas áreas como a comunicação internacional, liberdade de imprensa ou manipulação de conteúdos.

Esta questão esteve bastante presente no Fórum Económico de Krynica na Polónia, que decorreu entre 8 e 10 de Setembro. Este fórum, que contou com a presença de três presidentes (o Presidente da Polónia, a Presidente da Croácia e o Presidente da Macedónia), teve em conta o impacto da comunicação nos nossos dias, sobretudo, aquela que circula a nível internacional. Nesse sentido, fui moderadora de um dos painéis sobre o tema “Comunicação Internacional: os poderes económico e político suaves” e foi com alguma estranheza que fui assistindo, no meu e em outros painéis, à ideia que apenas os outros fazem propaganda, do “nosso” lado apenas desmantelamos propaganda alheia e desinformação. Como se uns fossemos os defensores de todos os valores democráticos e os outros fossem apenas seus combatentes, numa lógica de oposição primária. Chega-se mesmo à insensatez de considerar que num país em guerra, como a Ucrânia, não existe qualquer pressão ou controlo sobre os jornalistas, o que seria algo completamente novo e inverosímil tendo por base a história de todos os tempos e conflitos humanos.
No esteio da mesma lógica não se considera que o poder económico, tal como o político, pode ter e tem tido a tentação de controlar os conteúdos publicados. Apenas um jornalista de um grupo económico de imprensa romeno fez referência a esta situação e estabeleceu a ponte entre interesses económicos e políticos que muitas vezes coabitam na esfera das pressões ao exercício do jornalismo livre.

E não se pense que os constrangimentos à escrita livre ou o apelo para a propaganda é apenas uma questão de geografias distantes ou oriundas de países com democracias mais jovens. Desde a eleição de Jeremy Corbyn para líder do Partido Trabalhista britânico que as mais diversas reações não se têm feito esperar, chegando de vários pontos do globo incluindo Portugal. Mas a mais interessante de todas as reações foi propagada pelo Partido Conservador britânico que realizou um vídeo a mostrar como nas mãos de Corbyn o Reino Unido estaria em perigo.

Podemos verificar que tanto a imprensa mais séria quanto os locais de debate ao mais alto nível podem vir a sofrer deste mesmo mal: uma tendência acrítica para ver nos outros aquilo que não vemos em nós. Ou, então, uma propensão a demonizar as perspetivas que não nos interessam discutir. Na verdade, a propaganda está de boa saúde e recomenda-se. Tanto em tempos idos como atualmente, é parte de algumas mensagens que recebemos. Cabe-nos a nós identificá-la e saber interpretá-la para assim podermos defender os valores da democracia. Porque já percebemos que os extremismos são uma ameaça e que a propaganda e contrapropaganda também servem estas tomadas de posição.

Cátia Miriam Costa
Investigadora do Centro de Estudos Internacionais, ISCTE – IUL

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