Protesto de agricultores leva tratores em marcha lenta até Coimbra

Na base da contestação está a falta de respostas do Governo socialista às reivindicações dos agricultores, que reclamam apoios aos fatores de produção e isenção de impostos no gasóleo agrícola, entre outros.

Reuters

Um protesto promovido por agricultores do Baixo Mondego, contra a falta de apoios do Governo, irá levar, na sexta-feira, várias dezenas de tratores agrícolas, em marcha lenta, de Montemor-o-Velho até à baixa de Coimbra.

Na base da contestação está a falta de respostas do Governo socialista às reivindicações dos agricultores, que reclamam apoios aos fatores de produção e isenção de impostos no gasóleo agrícola, entre outros.

“Fomos recebidos em 29 de março na delegação da Direção Regional de Agricultura e Pescas do Centro (DRAPC), entregámos uma exposição, dando até um prazo razoável [15 dias] de resposta à senhora ministra da Agricultura e não houve qualquer tipo de resposta. Para nós, isso é uma grande falta de respeito e de consideração para com a agricultura do Baixo Mondego”, disse hoje à agência Lusa Isménio Oliveira, coordenador da Associação Distrital de Agricultores de Coimbra (Adaco).

Face à insatisfação dos agricultores, a Adaco e a Comissão de Agricultores do Baixo Mondego irão promover uma deslocação de tratores, em marcha lenta, entre Montemor-o-Velho e Coimbra, na sexta-feira, a partir das 09:00.

O percurso, com cerca de 30 quilómetros (km) irá ligar, pela Estrada Nacional (EN) 111, o Largo da Feira daquela vila do Baixo Mondego à povoação da Adémia, a norte de Coimbra e, daí, pela antiga Nacional 1, até à avenida Fernão de Magalhães, junto às instalações da DRAPC.

Naquela delegação regional, os contestatários irão entregar uma “nova exposição”, dirigida, como a anterior, à ministra da Agricultura, mas também, desta vez, ao Presidente da República, primeiro-ministro, Comissão de Agricultura e Pescas da Assembleia da República e aos deputados eleitos pelo círculo de Coimbra.

Os apoios aos agricultores, que Isménio Oliveira considerou “da mais inteira justiça”, incluem, “como há, e bem, a outras atividades ligadas ao setor primário”, isenções de IVA e de tributação em sede de Imposto sobre Produtos Petrolíferos (ISP) no gasóleo agrícola – que duplicou de preço no espaço de um ano – ou, em opção, “um subsídio de 30 cêntimos por litro de combustível, como há para as empresas de transporte”.

“Estamos a pedir algo que já existe noutros setores, nomeadamente em atividades do setor primário. E não pode haver aqui portugueses de primeira e portugueses de segunda”, justificou o coordenador da Adaco.

Outras reivindicações passam por apoios aos fatores de produção como adubos, pesticidas, herbicidas ou rações para animais, que sofreram “aumentos brutais” no espaço de um ano.

“Os adubos custam hoje três vezes mais do que há um ano, passaram de 200 euros para os 600 euros por tonelada”, exemplificou o responsável da Adaco.

Questionado pela Lusa sobre dados hoje divulgados que situam em 3.500 milhões de euros a riqueza criada pela agricultura em 2021, um valor que está queda desde os anos 1980, década em que gerava mais do dobro da riqueza atual, Isménio Oliveira culpou as políticas agrícolas, quer dos sucessivos Governos portugueses, quer da União Europeia.

“Nunca tiveram em conta uma questão muito importante que é a de que a grande maioria da agricultura em Portugal é pequena e média agricultura. Na maioria dos países da UE e em Portugal, a percentagem dos pequenos e médios agricultores é muito elevada em termos de produção agrícola e nunca houve uma política de proteção, de apoio, à agricultura familiar”, argumentou o coordenador da Adaco.

Acrescentou que em Portugal, nas últimas décadas, centenas de milhar de agricultores “deixaram de ter explorações agrícolas”, afirmação confirmada pelos dados compilados pela Pordata, base de dados estatísticos da Fundação Francisco Manuel dos Santos, a propósito do dia da produção nacional, que hoje se celebra, e que apontam para uma redução do número de agricultores.

Segundo esses dados, em 1989 Portugal tinha 1,5 milhões de agricultores, o equivalente a 16% da população residente, e, três décadas depois, tinha 650.000.

Ismémio Oliveira apontou o setor do leite como um “exemplo flagrante” dessa redução e da perda de produção: “Hoje, comparando com há 40 anos, 90% das explorações leiteiras desapareceram”, argumentou.

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