PRR, mesmo sem inflação, sofreria dos mesmos problemas

Execução da bazuca enfrentaria dificuldades com burocracia e mudanças na economia global, reforçando papel dos contabilistas.

Que avaliação faz do OE2023? Parece-lhe que haveria mais espaço para apoiar empresas e famílias?
Este é um OE voltado para as famílias, que aposta em medidas fiscais para combater o aumento do custo de vida, fazendo, por isso, da política fiscal um instrumento de política económica para tempos de crise.
Tal como já tinha sido evidente em 2022, a aposta da política fiscal tem vindo a centrar-se no IRS, não por via da descida estrutural da carga fiscal, mas da minimização conjuntural dessa mesma carga fiscal, com aumentos de deduções fiscais e medidas de anestesia por via da atenuação das taxas de retenção na fonte.

Quais lhe parecem ser os principais obstáculos à execução do PRR nacional?
Parecem-me ser os habituais: procedimentos administrativos pesados, dificuldades operacionais do lado das entidades gestoras, insuficiência de apoio aos beneficiários e eventual excesso de procura. Não se vislumbra que haja ainda uma cultura de serviço às empresas do lado da administração. É preciso que a administração pública seja um parceiro das empresas e não um obstáculo.

Que implicações terão estes atrasos e a subida de custos para os contabilistas, que estarão ligados ao processo como controlo interno, numa altura em que vários sectores se mostram preocupados com o facto de muitos contratos terem ficado desactualizados com a inflação que se tem sentido?
A execução do PRR, mesmo num contexto não inflacionista, sofreria, decerto, dos mesmos problemas que se constatam. Aqui, o que é novo é somar a inflação ao atraso na execução. É importante notar que estamos a tratar a inflação como se fosse um fenómeno novo na economia portuguesa, o que não é verdade, muito pelo contrário.

Preocupa-nos também que a redução da procura internacional possa pôr em causa os investimentos projetados e, dessa forma, a necessária recuperação económica. Por outro lado, os nossos parceiros comerciais têm vindo a adotar medidas semelhantes de combate à inflação, pelo que, se espera que o combate à inflação na Europa possa, pelo menos, mitigar, os efeitos sobre a procura internacional de bens e serviços.

Os contabilistas, que atuarão no controlo interno, têm de ter em conta estas variáveis macroeconómicas, mas é, sobretudo, importante que a alteração de circunstâncias económicas possa ser relevada pelos organismos gestores, quando necessário, no cumprimento dos projetos, pois estamos a falar de variáveis externas, não controláveis pelos beneficiários.

Como têm os profissionais do sector olhado para o próximo ano, quando se espera um abrandamento da atividade económica que pode levar a subidas do desemprego? Qual será o principal desafio para os contabilistas em 2023?
A contração da atividade económica pode levar a insolvências de clientes, e, naturalmente, desemprego. O risco económico é grande, mas também é verdade que hoje os contabilistas estão mais capacitados para prestar mais serviços e, nessa medida, é importante recompor a oferta de serviços para se ajustar a uma expetável diminuição do número de clientes. Outro desafio será o aumento do prazo de cobranças, com os evidentes problemas de gestão de tesouraria que acompanham esta situação.

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