“PS ainda pode ser obrigado a um bloco central com o PSD”

Expulso do PSD, foi sondado por socialistas para enfrentar Carlos Carreiras. Rejeita agora esse cenário. Gostaria de Rui Rio na liderança social-democrata, mas só após as autárquicas.

Cristina Bernardo

Como vê este ano de Governo PS e os acordos à esquerda?
A solução partiu com uma fasquia muito baixa, com expectativas muito limitadas, e teve um sucesso inequívoco, nomeadamente pela aprovação dos orçamentos e pela capacidade de diálogo e de consenso com o PCP e com o Bloco de Esquerda. Há estabilidade. Por outro lado, teve uma grande ajuda do Presidente da República, e ainda bem, porque a estabilidade neste momento é essencial. E não deixa de ter uma grande ajuda da oposição.

O que tem faltado?
O PSD teve muita dificuldade em engolir uma coisa: não basta ficar em primeiro nas eleições para governar, é preciso fundamentalmente ter maioria na Assembleia da República. Arrastar durante o tempo essa crítica desesperada deu a sensação de mau perdedor. O público começou a ficar enfastiado de tantos lamentos. Por outro lado, o PSD resolveu colocar a fasquia muito baixa em relação às perspetivas do Governo, anunciando catástrofes sucessivas. Isso refletiu-se em termos psicológicos para a população e eleitores, como se vê nas sondagens – o PSD nesta altura já deveria estar a recuperar. Foi muito nefasto. Em lugar de encontrar temas credíveis para atacar fê-lo através de dossiês muito frágeis.

Passos Coelho tem condições para se manter à frente do partido até às eleições autárquicas?
Eu sou suspeito, porque é publico e notório que discordo da linha e estratégia política desta direção. Mas, como social-democrata que continuo a ser, entendo que Pedro Passos Coelho é um líder legítimo, que tem um mandato inequívoco. As bases começam a ficar perturbadas porque não gostam de ver o partido a não recuperar nas sondagens, mas a legitimidade está do lado dele. E ele tem qualidades que é bom não subestimar, nomeadamente uma grande resiliência. Passos não deixará de lutar no próximo congresso, a não ser que haja uma catástrofe nas próximas autárquicas, que eu não prevejo. Se as coisas não lhe correram mal nas autárquicas, estará de pedra e cal até ao próximo congresso. Se aí aparecerem alternativas credíveis, é óptimo.

Qual o nome com que mais se identifica?
Fui mandatário da candidatura de Paulo Rangel, mas neste momento estou muitíssimo mais próximo de Rui Rio do que qualquer outro. Mas não acho que seja necessário precipitar qualquer congresso. Estamos a meio de um mandato, em que legitimamente o presidente do partido deve conduzi-lo nas autárquicas e prestar contas no congresso.

Que características vê em Rui Rio para apoiá-lo?
Pode-se resumir numa frase: é mais social-democrata. Menos liberal, menos conservador. É um político com enormes qualidades pessoais, que coloca a ética acima de tudo, com grande capacidade no domínio das finanças públicas e da economia. Tem características excelentes para liderar o partido. Ele põe essa hipótese, por isso veremos.

Tem mantido algum tipo de contacto com ele?
Muito pouco. Estou afastado. Quando vou ao Porto converso com ele, mas são conversas esporádicas. Não faço parte de nenhum movimento ou de campanha. Se a questão se colocar, é muito provável que venha a apoiá-lo – embora de fora, porque não sou militante do PSD.

Seria possível reingressar no partido caso Rui Rio fosse eleito presidente do PSD?
Neste momento estou concentrado, enquanto independente, na candidatura de Marco Almeida à Câmara de Sintra, por isso essa questão não se coloca. É certo que o PSD se aproximou da candidatura de Marco Almeida e abre-se uma janela de oportunidade. Houve uma reaproximação entre os dois blocos, entre os militantes do PSD e os apoiantes de Marco Almeida. Por isso é possível que o partido abra as portas ao reingresso de militantes, da mesma forma que no tempo de Cavaco Silva reabriu as portas, quando foram expulsos vários militantes que apoiaram a candidatura de Mário Soares e não aceitaram a candidatura de Freitas do Amaral. Pouco tempo depois foram reabsorvidos com o mesmo número de filiação.

Como se sente hoje face ao PSD? Está magoado?
Atirei isso para trás das costas a partir do momento em que o PSD se aproximou de Marco Almeida em Sintra. São as mesmas pessoas que no PSD estiveram na génese da recusa da candidatura há três anos e foram as mesmas pessoas que reconheceram o erro. E têm a cobertura dos órgãos nacionais. Por isso é história. Nesta altura congratulo-me pelo facto de a família social-democrata estar a aproximar-se.

Voltando à potencial candidatura de Rui Rio, acha que reuniria apoios nas bases para sair ganhador de um congresso?
Neste momento é impossível antever qual a disposição das bases. Atualmente, falar de bases do PSD é falar de estruturas distritais e concelhias que estão bastante ligadas ao Dr. Pedro Passos Coelho, que estão bastante vocacionadas para o apoiar se virem que tem condições para exercer a liderança. Mas, historicamente, a partir do momento em que as bases verificam que o líder em causa não tem condições razoáveis para poder ascender ao poder, e que há alternativa, viram-se para essa alternativa. Aconteceu variadíssimas vezes.

Se verificarem que Passos Coelho não descola, é natural que haja essa evolução?
Dependerá fundamentalmente do que acontecer politicamente daqui a nove meses. Não é tanto o resultado das autárquicas que pode perturbar – só se os resultados forem muito negativos. O que pode afetar é nessa altura o PSD não ter recuperado eleitoralmente face ao PS. A experiência mostra que quando há eleições a meio de uma legislatura, o partido que está no poder perde e o partido maior ganha. Aconteceu sistematicamente no Parlamento Europeu. Mas isto aconteceu porque, precisamente, o partido no poder estava desgastado a meio do mandato e em baixa nas sondagens. Mais importante do que o resultado das autárquicas é saber se o PSD está com força nas sondagens.

Pode acontecer um fenómeno semelhante ao António José Seguro, que ganhou as europeias mas viu-se afastado da liderança porque houve um sobressalto nas bases?
Não basta isso, é preciso que haja alternativa. E na altura apareceu uma alternativa credível que ganhou. No PSD, se se perfilarem pessoas como Paulo Rangel e Rui Rio, são alternativas credíveis.

Como avalia a posição que o CDS tem tido no xadrez político?
Assunção Cristas esquece-se por vezes que esteve no governo anterior. Foi corresponsável pelo que foi feito e pelo que não foi feito no governo anterior. E o CDS não tem conseguido captar as fragilidades do PSD a seu favor. As sondagens mostram que está no mesmo sítio onde estava. É o parceiro natural do PSD, embora a questão de Lisboa não favoreça essa aproximação, visto cada um dos partidos querer afirmar a sua autonomia. Mas os dois partidos deveriam compreender que a única hipótese de ganhar é através de uma coligação.

O PSD devia apoiar Cristas na capital?
Isso tenho a maior dificuldade em admitir, por razões de natureza interna. Se tivesse sido uma questão negociada à partida, com Passos e Cristas a dizer que para Lisboa havia uma candidatura forte, talvez as bases do PSD pudessem engolir. Como foi feito, não acredito que seja digerível pelo PSD local, pela concelhia de Lisboa. Tem de haver uma alternativa.

Que não é fácil de encontrar.
Sim, por várias razões. Desde logo porque o lugar de presidente da Câmara é muitíssimo mal remunerado, para as responsabilidades que tem.

Como tem sido a sua relação com o PS? Em determinada altura houve uma aproximação para se candidatar à câmara de Cascais. Não tem ambições políticas?
Nenhuma. Tenho 72 anos. Dedico-me exclusivamente à Assembleia Municipal de Sintra, ao apoio ao Marco Almeida e à reaproximação com o PSD, para além de ser ‘baby sitter’ dos meus netos três vezes por semana. Houve de facto uma aproximação do PS em momentos eleitorais. Em consciência, sem qualquer contrapartida, aceitei apoiar o Francisco Assis, que fez um excelente trabalho no Parlamento Europeu. Depois, nas eleições legislativas, dadas as minhas discordâncias com o governo anterior, declarei apoio ao António Costa. Confesso que não foi numa perspetiva de ser formada uma geringonça, que me pareceu negativa para o país. Mas essa aproximação ao PS foi pontual. Em Cascais, um grupo de militantes históricos socialistas aproximou-se para analisar a hipótese da câmara. Conversámos, mas está completamente fora de causa. Neste momento estou apostado em Sintra, no apoio a Marco Almeida.

Se deu o apoio ao PS e não queria uma geringonça, como encarou essa solução? Sentiu-se defraudado?
Não. Encarei com naturalidade. Os acordos são legítimos, embora não me pareça o melhor para o país, que seria o bloco central. O país só consegue aprovar as reformas estruturais de que precisa, e que estão sucessivamente adiadas, quando um dia tiver um governo estável do PS e do PSD, que consiga fazer uma revisão constitucional democraticamente e mexer em capítulos fundamentais, como a segurança social, a saúde ou as leis eleitorais.

Com a viragem à esquerda do PS há margem para que esse bloco central apareça a médio prazo?
Julgo que essa viragem é conjuntural. O PS está no centro-esquerda e o grande problema chama-se Europa. Se houver um momento em que o PS compreenda que, com aqueles dois parceiros, não pode persistir nas suas políticas europeias, não pode cumprir os tratados e os compromissos a que está vinculado, e que o único parceiro é o PSD, haverá necessariamente um governo minoritário do PS com apoio do PSD ou um governo de bloco central.

António Costa e Rui Rio poderiam corporizar essa solução?
Sendo a solução que defendo, e sendo eu amigo de Rui Rio, sim, claro.

Mas é credível que isso aconteça? O PS não teria também de mudar de liderança para que tal acontecesse?
Não tem de mudar liderança nenhuma. O Dr. Mário Soares liderou um governo de bloco central com Mota Pinto ao lado dele e as coisas correram razoavelmente bem. Não é um cenário desfasado da realidade, com estes protagonistas de que falou ou com outros quaisquer, é-me indiferente.

[Notícia publicada na edição de 16 dezembro do Jornal Económico]

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