PSD, diagnóstico de uma crise

O que se vive no PSD é o resultado de um imobilismo típico das estruturas partidárias, de vícios conservadores de organizações que pretendem gerar progresso.

  1. Ninguém tem dúvidas que Donald Trump é fruto de uma alternativa fraca e de um descontentamento generalizado da população. Ninguém tem dúvidas que esse descontentamento é motivado por vários factores, entre os quais se destaca a incompetência e incapacidade da classe política em resolver os problemas das pessoas. Esta é uma constatação que se verificou, aliás, no resultado da votação do referendo britânico de Junho de 2016. O mundo como o conhecemos está a mudar, a democracia produz resultados que exigem uma análise mais cuidada e a política exige, para além de outra postura, respostas concretas aos desafios que surgem diariamente.
  1. Do plano internacional para o panorama nacional constatamos que a mudança também chegou a Portugal. Os cidadãos estão, na sua maioria, fartos da classe política. Fartos da incapacidade dos políticos de alcançar compromissos sérios, fartos das suas divisões sectárias e partidárias da realidade. Eu enquadro-me nesta maioria. De todo o modo, talvez numa das minorias da maioria, ou seja, naquela que ainda organiza a vida para ir votar. Ainda assim, reconheço que houve – ou há, já lá vamos – excepções à regra, entre as quais destaco Pedro Passos Coelho, um político sério num tempo em que se faz política a brincar, um homem corajoso numa altura em que a coragem significa descontentamento e, acima de tudo, uma pessoa íntegra rodeada por alguns sujeitos que se movem por interesses. Nada disto lhe foi reconhecido, mas sendo a História justa, o seu nome será mais tarde devidamente recordado e os seus méritos reconhecidos. 
  1. Recupero esta última ideia: Pedro Passos Coelho tem contas a acertar com a História e não se deve submeter a novas eleições. Ele pertence, necessariamente, ao passado, não ao futuro. É injusto? Claro que sim, principalmente depois do triste capítulo das eleições legislativas, mas a verdade é que o PSD precisa de novidade, precisa de mudança e ela não existe com caras do anterior governo. Ficar à espera do resultado das autárquicas de 2017 para ver como corre e para sentir como estão as bases é uma idiotice típica de quem não aprende com o tempo. 
  1. Naturalmente que nada acontecerá e o PSD permanecerá imóvel perante a necessidade de agir – “afinal, o Congresso do partido foi em Abril de 2016, pelo que eleições só em 2018”. E, com esta atitude de passividade, antevêem-se algumas consequências: i) desde logo, a manutenção de uma postura pouco combativa dentro da Assembleia da República, uma fraca visibilidade política na comunicação social e uma ausência de dinamismo de actividade partidária relevante; ii) um surgir, como aliás já se vê, de movimentos de discórdia e de vozes de protesto contra a política adoptada – ou, em bom rigor, não adoptada –, o que aliás seria evitado se o PSD funcionasse de uma outra forma, eventualmente mais digna, não incorrendo nas mesmas leviandades que se vivem noutros partidos; iii) um mau resultado eleitoral nas eleições Autárquicas de 2017 potenciado pela política de “distribuição de riqueza” por parte do Governo, mas também pelas várias coligações de esquerda que se antecipam existir ao nível local. 
  1. Enfim, pouco posso acrescentar a este diagnóstico, com a excepção de um detalhe que considero relevante para aqueles que tiverem a oportunidade de ler este texto e tiverem responsabilidades para mudar o status quo. O que se vive no PSD é o resultado de um imobilismo típico das estruturas partidárias, de vícios conservadores de organizações que pretendem gerar progresso. Chegará o tempo em que aqueles que disseram que os partidos políticos se deviam reformar, por não verem reforma alguma, criarão mecanismos de participação política alternativos. Chegará o tempo em que estes mecanismos, tão rápidos e eficazes, substituirão os partidos políticos, tão lentos e ineficientes.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

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