Queda de vendas na restauração continua em 2021

O efeito negativo da pandemia não se limitou a 2020, prolongando-se pelo ano em curso. Recuperar o valor das vendas é um desafio para os próximos tempos, assim como a sustentabilidade e o enoturismo.

Os efeitos nefastos da pandemia na comercialização dos vinhos nacionais não se fez sentir apenas em 2020. Os reflexos negativos mantêm-se durante o ano em curso, como explicou Maria João Real Dias, do IVV – Instituto da Vinha e do Vinho, no Fórum Anual de Vinhos 2021, que decorreu no passado dia 24 de novembro, em Santarém, sob a égide da ViniPortugal. Segundo os dados divulgados por esta especialista, nos nove meses entre janeiro e setembro venderam-se apenas 26 milhões de litros de vinho português no sector nacional da restauração, contra 36 milhões de litros no período homólogo do ano passado e 68 milhões de litros de janeiro a setembro de 2019, numa fase pré-pandemia. No segmento da distribuição, o panorama é positivo, tendo as vendas passado de 140 milhões de litros nos primeiros nove meses de 2020, para 149 milhões de litros em período idêntico do ano passado e para 154 milhões de litros de janeiro a setembro deste ano. Em valor, o panorama é idêntico: as vendas de vinho nacional caíram de 446 milhões de euros na restauração nos primeiros nove meses de 2019, para 237 milhões de euros de janeiro a setembro do ano passado e para 176 milhões de euros no período homólogo deste ano. Em contraponto, no sector da distribuição, as vendas de vinho português subiram de 335 milhões de euros de janeiro a setembro de 2019, para 355 milhões do período similar do ano passado, e para 386 milhões de euros nos primeiros nove meses deste ano.

No cômputo geral, a evolução do preço médio do vinho português no mercado interno também evoluiu de forma favorável, apesar da crise provocada pela pandemia. Passou de 6,59 euros na restauração nos primeiros três trimestres de 2019, para 6,58 euros no período homólogo do ano passado, e para 6,65 euros de janeiro a setembro deste ano. No segmento da distribuição, o comportamento foi similar: de 2,39 euros, para 2,38 euros, e para 2,51 euros nos primeiros nove meses de 2021.

Resumindo, se compararmos os primeiros nove meses de 2020 com o período homólogo deste ano, em termos globais, somando o sector da restauração ao da distribuição, as vendas de vinho português tranquilo (exclui os espumantes, frisantes, fortificados e generosos) em território nacional registaram uma quebra de 2,5% em volume e de 5,1% em valor, com o preço médio a baixar em 2,7% E o ano de comparação, 2020, já foi, obviamente de fraca memória. Assim, um dos grandes desafios do sector nacional do vinho é recuperar o tempo perdido, em particular no segmento da restauração. Recuperar vendas, em volume e valor, recuperar a trajetória ascendente dos últimos anos no que se refere ao preço médio, e que foi interrompido pela pandemia.

Melhores ventos têm corrido na vertente das exportações (ver texto ao lado), mas como se percebeu das intervenções proferidas no referido Fórum Anual de Vinhos, os produtores nacionais de vinho têm mais preocupações no horizonte. Responsáveis de diversas CVR – Comissões Vitivinícolas Regionais – do Alentejo ao Dão, sem esquecer Lisboa, Tejo, Vinhos Verdes e o IVDP – Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto – sublinharam que, além da sustentabilidade económica e financeira das explorações, há cada vez mais foco na sustentabilidade ambiental e social dos territórios onde estão inseridos. A procura por soluções engenhosas de mitigação das alterações climáticas, da vinha à adega, vai a par das tentativas para procura solucionar os grandes constrangimentos provocados pela carência de mão-de-obra qualificada e não qualificada.

Aumentar o conhecimento junto dos consumidores; alargar e rejuvenescer a base de consumidores; apoiar a promoção e internacionalização dos agentes económicos; incrementar a utilização dos canais digitais e da social media; desenvolver as atividades de enoturismo; promover a realização de eventos premium e de visitas inversas de jornalistas e de responsáveis do trade; e fomentar a inovação, a diferenciação e o acréscimo de valor foram alguns dos objetivos enunciados e desafios identificados no Fórum Anual dos Vinhos 2021.

A posição do IVDP e das CVR
Tiago Caravana, da CVR Alentejana avisou que, na vertente externa, a relação qualidade/preço, que é tão apreciada por todos, em certos mercados “pode ser um entrave para o crescimento das exportações”, exemplificando com o mercado norte-americano, cujos consumidores “valorizam o facto de o preço médio ser superior” para adquirir um vinho.

Apostando na valorização do produto e dos conhecimentos sobre o vinho, assim como na dinamização dos canais digitais, Pedro Mendonça, da CVRDão, anunciou para o primeiro semestre de 2022 a criação da Academia de Vinhos do Dão e o lançamento de uma nova app.

Por seu turno, Carlos Soares, do IVDP, centrou a sua intervenção na necessidade de afirmação internacional da região, adição de valor, promoção de produtos premium e apoio à internacionalização dos agentes económicos que o IVDP representa. Dinamizar estratégias de promoção; aumentar o conhecimento dos consumidores sobre os produtos; investir na diferenciação positiva do produto, assente num sistema moderno de certificação; apoiar a diversidade e versatilidade dos vinhos premium do Douro e do Porto, adaptadas à gastronomia dos mercados para onde se pretende exportar; e criar novos momentos de consumo, mais associados ao mundo dos bares e da mixologia (a arte dos cocktails) são alguns dos desafios e objetivos elencados por Carlos Soares. Este responsável referiu ainda o factor crítico de investir na formação e na pedagogia das provas comentadas e da presença em feiras do sector, a par da aposta, numa estratégia de continuidade, nos mercados prioritários de exportação da região: Estados Unidos, Canadá, Brasil, Dinamarca, Bélgica, Suíça e França.

Já Francisco Toscano Rico, presidente da CVR Lisboa, denunciou a falta de transparência sobre a origem e proveniência dos vinhos importados, incluindo os da União Europeia, comercializados na restauração nacional, e defendeu que a nova PAC – Política Agrícola Comum, em fase final de discussão, deverá conter medidas de apoio para acelerar a adesão e adoção de novas práticas por parte dos produtores. “O caminho para a sustentabilidade tem de ser célere a ser colocado no terreno e a serem disponibilizados mecanismos de apoio aos produtores”, advogou Francisco Toscano Rico. O presidente da CVR Lisboa destacou ainda que as vendas de vinho certificado da região duplicaram nos últimos cinco anos, assim como a vertente exportadora, para onde tem sido canalizada mais de 80% das vendas, para mais de 100 países. Investir nos públicos-alvo – importadores, distribuidores, escanções e restauração – dos cinco mercados prioritários de exportação – Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Suíça e Rússia – foi outra das apostas anunciadas por Francisco Toscano Rico. Novas abordagens e novos mercados com potencial, como a Irlanda e a Ucrânia; uma maior segmentação das ações de comunicação, mais focadas no binómio mainstream Vs. premium; e uma crescente atenção ao mercado nacional, em que a região tem um desempenho abaixo da média, focando na restauração regional e premium e lançando um conjunto de ações ligadas ao enoturismo, são outros desafios lançados pelo presidente da CVRLisboa.

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