Quem protege a dignidade e humanização de quem trabalha?

Lamentavelmente – e com a eminência de custos, económicos, sociais e políticos, a curto e médio prazo –a precariedade, a exploração e sujeição a doenças (como a ansiedade, depressão ou o burnout) são a prática mais banalizada no mundo laboral dos nossos dias.

Que todos sentimos a galopante perda de compra nos últimos tempos, é inegável. Mas essa mesma perda, tem-se vindo a sentir há mais de uma década- que o digam os funcionários públicos que o perderam em cerca de 11% com os sucessivos e alternados governos de direita PSD/CDS e de esquerda PS. E mesmo com os aumentos irrisórios- ridículos, mesmo, e insultuosos! – a esta classe, não há como reverter esta condição que, a médio e longo prazo, terá repercussões desastrosas (e inevitáveis) no tecido socioeconómico. Já para não mencionar a crescente desqualificação de efectivos na função pública, com perda de qualidade de muitos dos serviços, por debandada dos melhores quadros (inclusive para o estrangeiro) e recusa de ingresso de novos quadros qualificados, por melhor oferta noutros sectores (há mesmo concursos públicos sem quaisquer candidatos, em diversas áreas do sector público, inclusive da saúde…).

Noutros sectores, privados, os rendimentos são ainda mais díspares entre si, desde o alto gestor e administrativo que aufere milhares de euros, enquanto os demais trabalhadores para poderem ganhar o que ganha num mês um gestor, precisariam de trabalhar dezenas, ou mesmo centenas, de anos (na verdade, este fenómeno ocorre igualmente em empresas públicas, que nem sempre pautam pela melhor gestão de recursos, não raramente endividando-as ou mesmo ameaçando-as de falência, socorridas com o pronto socorro do Estado que é o mesmo que dizer o sacrifício de todos nós, contribuintes).

Há, ainda, um outro fenómeno laboral, mais recente, que não veio resolver a devida dignificação de quem trabalha, pelo contrário; nem sequer veio recompensar a classe trabalhadora monetariamente – é o denominado formato de “trabalho uberizado” (bem assinalado e descrito num artigo recente “O meu chefe é um algoritmo – Reflexões preliminares sobre a uberização do trabalho” do professor João Areosa). Como bem vinca o artigo, estamos perante a venda de uma ilusão: de que o trabalhador não tem horários, não tem patrões e é autónomo. Nada mais falacioso, pois estes novos trabalhadores não só estão sujeitos a controlos tecnológicos do seu desempenho, como ainda a avaliações dos próprios clientes. E se as “regalias” (falaciosamente assim denominadas, porque na verdade tratam –se de DIREITOS laborais plasmados na Constituição da República!) no sector público e privado decaem na precariedade, imagine-se então no sector uberizado, um “subemprego que despossui os trabalhadores de direitos fundamentais de cidadania e dignidade”? Lamentavelmente – e com a eminência de custos, económicos, sociais e políticos, a curto e médio prazo –a precariedade, a exploração e sujeição a doenças (como a ansiedade, depressão ou o burnout) são a prática mais banalizada no mundo laboral dos nossos dias. E mesmo ao nível legislativo, sobretudo no que respeita à proteção social, são inúmeros os retrocessos, evidenciando uma profunda desestruturação do mercado do trabalho e desvalorização da força individual, e colectiva, de quem trabalha.

E que nos “garante” o mais recente orçamento de Estado? A falha (reiterada) na resposta às necessidades reais e urgentes dos orçamentos familiares e empresariais. Quem protege afinal as famílias e a economia com a correspondente correlação com a dignificação e proteção do trabalho, e de quem trabalha e de quem deles depende?!

Entretanto, a austeridade, sem ajustamento remuneratório, na administração pública e privada continua, pensionistas incluídos. E a falta de regulamentação e legislação para os que “trabalham para algoritmos” que, não obstante fornecerem os instrumentos de trabalho (motas, telemóveis, etc…), ainda são sujeitos a censuras e castigos (digitais) de velocidade, de tempo, de satisfação algorítmica, etc.

Que delirante teoria económica é esta que sacrifica quem trabalha- a grande força motriz e alavanca de um país? Se é verdade que uma vida sem trabalho não nos traz conforto, uma vida de trabalho precário e sem “prazer” não nos serve de porto, pelo contrário, pode “matar-nos”. Sim, o suicídio por motivos laborais está documentado. Os tombos económicos, pela mesma razão, também.

As repercussões políticas também já se reflectem na ascensão de forças extremistas, populista e criminosas, pela Europa, e não só, que ameaçam seriamente a HUMANIDADE.

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