Quem são os terroristas?

Morreram nove reféns e cinco terroristas. A origem do terrorismo já vinha de longe, muito antes de eu ter nascido

Cheguei a este mundo no domingo, dia 27 de agosto de 1972. Calhou em destino ter nascido numa cidade chamada Porto, num país com o nome de Portugal, pelo que fiquei a ser um português e, como tal, fui criado de acordo com os costumes em vigor nessa região em particular. Uns dias depois do meu nascimento, a 5 de setembro, uns jovens com mais idade do que eu, nascidos numa outra área do globo e conhecidos como “Setembro Negro”, deslocaram-se à cidade alemã de Munique e fizerem um ataque terrorista durante os Jogos Olímpicos.

Morreram nove reféns e cinco terroristas. A origem do terrorismo já vinha de longe, muito antes de eu ter nascido. E nunca mais parou. A 17 de dezembro de 1973, por exemplo, tinha eu um ano e quatro meses quando se deu o ataque no aeroporto de Roma.

Em Portugal, durante o verão de 1975, houve atentados bombistas. Antes ainda de ter a idade de dez anos, houve casos como o do chileno Orlando Letelier, assassinado em Washington, o do primeiro-ministro italiano Aldo Moro, morto em 1978, o ataque à embaixada dos EUA em Teerão, Irão, a 4 de novembro de 1979 e o assassinato do padre Oscar Romero, em S. Salvador, a 24 de março de 1980.
A 2 de agosto do mesmo ano, um atentado na estação de comboios de Bolonha, Itália, matou 85 pessoas. O primeiro-ministro português Sá Carneiro foi assassinado a 4 de dezembro de 1980, a base norte-americana de Ramstein, na Alemanha, foi atacada à bomba em agosto de 1981 e o presidente do Egipto, Anwar Sadat, foi assassinado em outubro do mesmo ano. Quando estava a caminho dos 20 anos de vida na terra, a embaixada dos EUA em Beirute foi atacada em 1983, um restaurante em Espanha perto da base norte-americana de Torrejon foi atacado em 1984, o navio italiano de cruzeiros Achille Lauro foi sequestrado em 1985 e, no mesmo ano, houve mais ataques nos aeroportos de Roma e Viena. Em 1986, a discoteca La Belle, em Berlim, foi atacada à bomba. Fora uma retaliação pelo bombardeamento da Líbia. Pouco antes do Natal de 1988, um avião da Pan Am caiu em Lockerbie, Escócia. Meses antes, um míssil norte-americano teria abatido, por engano, um avião comercial iraniano que levava peregrinos a caminho de Meca.

Quando cheguei aos 30 anos, já tinha acontecido o 11 de Setembro de 2001. O meu segundo “Setembro Negro”. Vivi depois os atentados de Londres, Madrid, Boston, Paris e, uma vez mais, Paris. Sem contar aquelas coisas que as notícias me dizem que acontecem no mundo, longe da terra onde calhei ter nascido e longe da minha “cultura”. Já tenho mais de 40 anos de vida e não sei quem são os terroristas. Muitos deles morrerem nesses e noutros atentados. Agora, uma coisa eu sei: os políticos, esses, são praticamente os mesmos. Mudando uma ou outra cara, no fundo, são sempre os mesmos. E esses, para mim, com uma política que não acaba com o terrorismo mas que, pelo contrário, só o incentiva, são os verdadeiros rostos do terrorismo que sempre acompanhou a minha vida desde que aqui cheguei.

Frederico Duarte Carvalho
Jornalista e escritor

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