Quem tem medo da Ucrânia

A Ucrânia na UE é uma questão de humanidade, ou se tem ou não se tem. A política e a estratégia podem ficar para depois.

As posições que António Costa tem vindo a tomar nos últimos dias sobre a condição de estatuto de candidato à adesão à União Europeia (UE) por parte da Ucrânia, país que como se sabe sofre uma invasão russa desde 24 de fevereiro, são a todos os títulos surpreendentes.

O nosso primeiro-ministro evoluiu depois de ter estado em Kiev no mês passado, onde deixou esperanças aos responsáveis ucranianos para, recentemente, mostrar as maiores reticências quanto à concessão daquele estatuto.

Já se sabe que uma adesão plena demora sempre no mínimo dez anos e que há vários países que querem o estatuto de candidato, estando inclusive dois à frente da Ucrânia neste processo – Geórgia e Moldávia, curiosamente, ambos também debaixo do radar russo e até com territórios ocupados.

António Costa parece estar a fazer um jogo de sombras que terá a ver com o medo que alguns países da UE têm da entrada da Ucrânia, sobretudo por causa do enorme poderio do seu sector agrícola. A França, a Alemanha, a Holanda e também a Suécia têm mostrado reticências e isto poderá estar ligado à necessidade de rever a Política Agrícola Comum na sequência da entrada, no futuro, da Ucrânia.

Sozinha, a Ucrânia tem capacidade para alimentar 400 milhões de pessoas com os seus produtos agrícolas de alta qualidade. Isto implicaria grandes impactos no sector e em França, só para dar o exemplo, Macron iria ter muitos agricultores em guerra aberta com o Estado por causa da redução dos apoios que teriam de ser revistos para incluir um gigante na produção alimentar como é a Ucrânia sem guerra.

Infelizmente, são estas as jogadas de bastidores, já para não falar na questão do aço, onde os ucranianos têm uma capacidade muito superior a países da UE, como é o caso da Alemanha.

António Costa poderá, assim, ser o ponta de lança para mostrar ao presidente Zelensky um ‘cartão amarelo’ motivado apenas por medos quanto à necessidade de várias políticas serem revistas.

Esta posição não deixa de ser chocante perante os horrores a que temos assistido com a invasão russa, com cidades arrasadas, milhões de pessoas deslocadas, milhões de refugiados, uma crise humanitária sem precedentes que está a ter impacto económico à escala global e que irá afetar o continente africano de forma contundente devido à crise dos cereais, visto que a Ucrânia não consegue exportar por ter os portos bloqueados pelo invasor russo.

Neste momento, a Ucrânia está numa luta sem quartel e precisava de um sinal diferente da UE. O estatuto de candidato permitia-lhe levantar o moral das tropas e da população e ter uma perspetiva de futuro quanto à integração plena na comunidade europeia.

Os ucranianos são europeus, sempre foram, e esta recusa poderá levar a uma reorganização geoestratégica do Leste europeu e, no limite, resultar na saída da Polónia da União, com o “Polexit”.

Os polacos têm sido o grande apoio da Ucrânia, têm as suas fronteiras abertas aos refugiados e são, simultaneamente, os responsáveis pela manutenção da segurança na UE. Isto porque a agência Frontex, que regula e implementa o Espaço Schengen, está na Polónia, e a saída dos polacos iria obrigar à realocação desta agência.

A Ucrânia na UE é uma questão de humanidade, ou se tem ou não se tem. A política e a estratégia podem ficar para depois.

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