Quem tem medo de Trump?

É tempo de a UE ser autónoma no que se refere à sua segurança interna e à defesa efetiva dos seus limites externos. E o empurrão que levará à real discussão sobre o seu futuro chegou da América.

Ainda a poeira da eleição de Donald Trump não assentou e já se fazem sentir as primeiras ondas de choque na Europa, o que não será completamente negativo, já que irá obrigar a uma definição da Europa como União. Será um processo penoso sem dúvida, mas não deixará de ser uma clarificação quanto ao rumo que se pretende seguir. O efeito Trump teve impacto imediato na elaboração da agenda de assuntos a serem abordados e decididos na Cimeira de Roma do próximo ano, na qual se incluiu por fim a constituição de um sistema de segurança e defesa comum, inscrito no Tratado de Lisboa mas que, como tantos outros, nunca passou do papel.

É tempo de a UE ser autónoma no que se refere à sua segurança interna e à defesa efectiva dos seus limites externos. É mais que tempo, aliás. Foi preciso um político incorrecto, desbocado e desbragado, malvisto e mal-amado bater na mesa e dizer que não contássemos com a América para nos defender para todo o sempre. Só por esta razão já valeu a pena o voto e a decisão americana. A Europa vê-se assim obrigada a acordar da letargia que a si mesma impunha e que a levava a inibir o seu objectivo ao mero sistema monetário, que não é totalmente comum e se encontra há anos em crise. Mas caso se verifique uma viragem da política da UE – mais voltada para os cidadãos, para a solidariedade e igualdade –, não deixa de ser irónico que a mesma se fique a dever a uma figura a todos os níveis conotada com intransigência e discriminação.

A Cimeira de Roma será tudo menos pacífica, com assuntos tão polémicos como a questão dos refugiados, que parece não ter fim nem solução, e agora esta necessidade de defesa e segurança que implica, naturalmente, a afectação de uma verba considerável, para a qual um dos contribuintes diretos não poderá ser contabilizado, uma vez que optou por sair da União. Aliás, o Brexit não só traz consigo mais esta preocupação financeira, como também levanta o velho espectro de uma Europa em tudo dependente da Alemanha.

Por outro lado, o tema da migração, associado ao tema refugiados, também irá sofrer por via do tsunami Trump, com partidos de extrema-direita a agitar a bandeira da crise económica e do desemprego para dizerem NÃO aos fluxos migratórios, países a erguer muros defensivos nas suas fronteiras e movimentos sociais de carácter xenófobo a surgir a cada momento. Isto tudo num ano de várias eleições em diversos países da UE, que podem mudar o rosto da União.

Paralelamente a estas duas grandes questões, há ainda os países que pretendem incluir na Agenda de Roma a questão da reforma da zona euro, imprescindível também face à incerteza da nova administração Trump e suas consequências na economia internacional. Da América chegou, pois, o empurrão que levará a Europa à real discussão sobre o seu futuro. Temo é que, com tanta questão urgente, a Cimeira seja uma tentativa de meter o Rossio na Betesga.

A autora escreve segundo a antiga ortografia.

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