Reações ao discurso de Putin: repúdio de Moscovo, solidariedade com Kyev

Não é uma unanimidade absoluta, mas os mais importantes países do planeta uniram-se no repúdio à ameaça nuclear que Vladimir Putin transmitiu na sua intervenção. Os Estados Unidos foram particularmente duros. A Chechénia e a República Sprska foram particularmente compreensivos.

Lusa

Os líderes mundiais convergiram unanimemente na condenação do discurso do presidente russo Vladimir Putin, nomeadamente no que tem a ver com a ameaça mais ou menos velada do uso de armamento nuclear. A unanimidade perde-se quando a matéria é a promessa de apoio incondicional à Ucrânia, mas o presidente dos Estados Unidos foi, na ONU, claro: “seremos solidários com a Ucrânia”, afirmou, para insistir no comprometimento de Washington com Kyev.

“A Ucrânia tem os mesmos direitos de todas as nações soberanas. Seremos solidários com a Ucrânia e contra a agressão da Rússia, ponto final. Esta guerra é para extinguir o direito da Ucrânia a existir como um Estado”, disse, antes de se mostrar favorável a um maior comprometimento da ONU em relação àquilo que Biden considera ser a violação da sua carta por parte da Rússia.

“Acredito que chegou a hora de a ONU tornar-se mais inclusiva, para que possa responder melhor às necessidades do mundo de hoje. Os membros do Conselho de Segurança, incluindo os Estados Unidos, devem defender consistentemente a carta da ONU e abster-se do uso do veto, exceto em situações extraordinárias”, disse Biden. “É também por isso que os Estados Unidos apoiam o aumento do número de representantes permanentes e não permanentes no Conselho”.

Enquanto a primeira-ministra britânica, Liz Truss, se reunião em Nova Iorque com o seu homólogo Denys Shmyhal e com a primeira-dama Olena Zelenska, o seu secretário das Relações Exteriores, James Cleverly, disse que o Reino Unido nunca reconhecerá os resultados dos “falsos referendos” realizados numa Ucrânia ocupada. O “manual do referendo” de Vladimir Putin foi uma “farsa flagrante, projetada para tomar a Ucrânia”, escreveu no Twitter.

Antes disso, o presidente francês Emmanuel Macron disse precisamente a mesma coisa. “O que estamos a testemunhar desde 24 de fevereiro é um regresso à era dos imperialismos e das colónias. A França recusa essa ideia e irá obstinadamente procurar a paz”, acrescentou.

O chanceler da Alemanha, Olaf Scholz, descreveu o anúncio da mobilização de mais tropas e a possibilidade de uso de armas nucleares como um “ato de desespero”.

Um porta-voz da Comissão Europeia disse que Putin está a fazer uma “aposta nuclear muito perigosa” e deve “parar esse comportamento imprudente”.

O ministro da Defesa da Lituânia, Arvydas Anusauskas, disse que o país deve colocar a sua força de reação rápida em alerta máximo, já que a mobilização também ocorrerá na sua fronteira com o enclave russo de Kaliningrado. “Como a mobilização militar russa também será realizada na região de Kaliningrado, ou seja, na nossa vizinhança, a Lituânia não pode apenas ficar a assistir”, disse.

Finalmente, o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, criticou o líder russo por usar uma retórica nuclear “perigosa e imprudente”. Mas não avançou com aquilo que terá de ser uma resposta da aliança se a ameaça se concretizar.

 

Os desalinhados

Apesar de tudo, nem todos estiveram do lado da Ucrânia e contra Vladimir Putin. O membro sérvio (representante da República Sprska) na presidência da Bósnia-Herzegovina, Milorad Dodik, declarou em Moscovo que está disposto a enviar observadores para o referendo nas regiões separatistas de Donetsk e Lugansk. O líder nacionalista considerou os referendos como uma decisão autónoma dos cidadãos, apesar de decorrerem num cenário de guerra e com ausência de garantias.

O líder da Chechénia, Ramzan Kadyrov, alinhou pelo mesmo padrão: “Apoio totalmente as decisões tomadas pelo presidente Putin”, considerando que estas “medidas necessárias, importantes e preventivas” se destinam a proteger a integridade territorial da Rússia.

 

A paciência chinesa

A China – nação com fortes laços com a Federação Russa – pediu, já após o discurso de Putin, um “cessar-fogo por meio do diálogo e da consulta”. “Pedimos às partes relevantes que promovam um cessar-fogo por meio do diálogo e encontrem uma solução que acomode as preocupações legítimas de segurança de todas as partes o mais rapidamente possível”, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Wang Wenbin.

Entretanto, a agência russa Tass refere que o presidente chinês, Xi Jinping, pediu aos militares que concentrem a sua atenção na preparação para a ação militar. “É imperativo resumir e aplicar conscientemente a experiência bem-sucedida em reformas, dominar novas situações e entender os requisitos das tarefas, concentrar-se na preparação para guerras e ter a coragem de explorar e inovar”, terá dito o líder chinês numa conferência sobre defesa nacional e reforma militar em Pequim.

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