‘Realpolitik’

Há uma doutrina americana que defende a Rússia tem que ter uma saída honrada desta guerra e não pode ser humilhada, porque nesse caso não se sabe o que poderá fazer.

Henry Kissinger foi um dos obreiros da viragem na política e diplomacia americana no final da década de 60, quando era o national security advisor de Nixon, altura em que a palavra realpolitik ganhou um novo alcance. Coisa que, aliás, se manteve quando passou a Secretary of State do mesmo Nixon e, mais tarde, de Ford. Com ele a utilização da palavra generalizou-se, tanto na administração americana como nos media. Significava conduzir a diplomacia, a política e a ação de forma pragmática, em detrimento de valores e sem grandes considerações éticas ou morais.

Nada que não estivesse já na linha do que disse Lyndon Johnson quando do golpe de estado de 1964 no Brasil, que depôs o presidente Goulart e colocou no poder a ditadura militar que durou 21 anos: The United States prefer to have safe allies than democratic neighbors”, reflexo da Doutrina Johnson. Aliás, já em 1848 Henry Palmerstone, primeiro-ministro britânico terá dito no Parlamento que we have no eternal allies, and we have no perpetual enemies. Our interests are eternal and perpetual, and those interests it is our duty to follow”.

Os tempos mudaram, hoje ninguém faria (num país democrático) uma afirmação destas. Bem prega Frei Tomás, dirá o primeiro-ministro Morawiecki, que se sente desapontado por a Polónia se ter recusado a pagar o gás russo em rublos – e o fornecimento ter sido cortado ao país – quando um bom número de empresas europeias estão em vias o fazer: a 12 deste mês eram já, segundo a Bloomberg, uma vintena com contas abertas no Gazprombank e mais 14 estavam a preparar-se para as seguir; a Reuters dá-nos números ligeiramente mais baixos.

O novo esquema é simples: o pagamento é feito em moeda estrangeira e a transação é considerada fechada. Depois o montante é convertido em rublos, sem intervenção direta do Banco da Rússia. Assim, não há violação das sanções.

Isto mesmo foi clarificado numa reunião em Bruxelas na sexta-feira da semana passada, clarificação pelos vistos necessária no Que Fazer que levou até o nosso Supermário, do whatever it takes, a dizer numa conferência de imprensa há uma semana que nem pode haver violação de sanções por comprar em rublos porque “there is no official pronouncement of what it means to breach sanctions”, outra frase sua que poderá também ficar célebre.

Aliás, há uma doutrina americana – que aparentemente o Presidente Macron também perfilha – que defende que a Rússia tem que ter uma saída honrada desta guerra e não pode ser humilhada porque nesse caso não se sabe o que poderá fazer. Não deixa de ser curiosa esta preocupação quando, na Conferência de Yalta, Churchill disse a Estaline, sobre o pedido russo de 10 mil milhões de dólares de compensações aos alemães, que “se ele queria que o cavalo puxasse a carruagem, tinha que lhe dar de comer”, ao que Estaline respondeu “está certo, mas tome cuidado não vá ele dar-lhe um coice”. No nosso caso, já deu.

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