Reavaliação dos prémios de risco e queda dos preços das casas são riscos para a estabilidade financeira

O alerta consta do relatório de estabilidade financeira de junho de 2022 que foi apresentado esta sexta-feira pelo regulador liderado por Mário Centeno.

O Banco de Portugal, liderado por Mário Centeno, alerta que uma reavaliação adicional dos prémios de risco e uma queda dos preços no mercado imobiliário, perante alterações nas condições de financiamento, são alguns dos riscos para a estabilidade financeira.

De acordo com o relatório de estabilidade financeira de junho de 2022, apresentado esta sexta-feira, um dos riscos é “uma reavaliação adicional dos prémios de risco, não obstante a correção já ocorrida, podendo interagir com as vulnerabilidades acumuladas durante a pandemia e reduzir o preço dos ativos, com impacto no sistema financeiro, sobretudo na valorização de carteiras”.

“O aumento da incerteza tem-se materializado numa maior volatilidade dos mercados internacionais e isto condiciona as perspetivas dos investidores, podendo conduzir a um aumento da perceção de risco”, afirmou Laginha de Sousa, administrador do Banco de Portugal, na apresentação do relatório.

Por outro lado, “uma redução dos preços no mercado imobiliário residencial, decorrente de alterações nas condições de financiamento” é outro dos riscos para a estabilidade financeira, refere o regulador no relatório. Isto num contexto em que a “inflação elevada, a redução do rendimento real e o aumento dos custos de financiamento decorrente da normalização da política monetária diminuem a capacidade de endividamento dos particulares, podendo conduzir a uma redução da procura de imobiliário residencial”, explica a entidade.

Sobre este tema, o Banco de Portugal diz ainda que, “no contexto do recente maior crescimento observado no crédito à habitação, é fundamental assegurar que este não passe a assumir um papel determinante para a evolução dos preços no mercado imobiliário”.

Dificuldades das famílias e empresas é outro risco

No que respeita à situação financeira das famílias, o Banco de Portugal alerta para uma “a redução do rendimento disponível real devido à inflação e o efeito do aumento das taxas de juro sobre o serviço de dívida, aos quais acresce a incerteza relativa à evolução da atividade económica e do emprego”. Mário Centeno afasta, contudo que haja uma preocupação em torno de um incumprimento no crédito à habitação.

“As questões de incumprimento, em particular no crédito à habitação, estão muito relacionadas com o comportamento do mercado de trabalho. O mercado de trabalho tem demonstrado uma capacidade de resiliência, não só em Portugal mas também em Portugal, que poucos antecipavam”, disse o governador do Banco de Portugal.

Ainda assim, não “podemos ignorar” o impacto da normalização da política monetária, nomeadamente da subida das taxas de juro, realçou Centeno, notando que “temos de ter instrumentos suficientes” para suportar esta inversão e uma coordenação das políticas.

O regulador aponta ainda, no relatório, para um “aumento da probabilidade de incumprimento das empresas, refletindo o efeito conjunto da vulnerabilidade financeira de algumas empresas, da recuperação incompleta da atividade e da rendibilidade de alguns setores no pós-pandemia, bem como o enquadramento macroeconómico e financeiro atual”.

Outro risco é o facto de o “rácio de dívida das administrações públicas em percentagem do PIB não prosseguir a trajetória de redução prevista, derivado da incerteza sobre a atividade económica e do aumento dos custos de financiamento”.

“Nos próximos anos, o aumento das taxas de juro deverá traduzir-se numa melhoria da margem financeira dos bancos e num aumento do reconhecimento de imparidades e de perdas potenciais decorrentes da desvalorização dos títulos de dívida a justo valor”, sendo que o “impacto de cada um destes fatores é condicionado pela evolução da atividade económica e diferenciado conforme o horizonte temporal”, nota o Banco de Portugal.

Estes riscos “são de natureza distinta” dos que surgiram durante o processo pandémico, mas “têm a complexidade adicional de afetarem de forma distinta diferentes sectores, jurisdições e regiões a nível global, e isso torna ainda mais desafiante o conjunto de políticas que são necessárias”, afirmou Mário Centeno, governador do Banco de Portugal.

A longo prazo, há outros desafios que podem vir a afetar os vários sectores da economia, “com implicações sobre o crescimento económico e a inflação”, refere o regulador no documento, destacando o abrandamento do comércio internacional e da globalização dos processos produtivos, com possível aumento dos custos de produção, reflexo dos riscos geopolíticos e das perturbações nas cadeias de valor global,  a pressão nos mercados da energia e o aumento da digitalização da economia, que acaba por aumentar os ciber riscos e os riscos de branqueamento de capitais e de financiamento do terrorismo.

(Notícia atualizada com mais informação.)

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