Refugiados: Do exílio geopolítico ao exílio psicológico

Exposição “On Exile”, de José Carlos Teixeira, está em exibição no MAAT até dia 15 de fevereiro. Uma viagem ao mundo de quem se deslocou forçosamente – para fugir da guerra civil ou do Daesh, mas também ao de quem vive exilado da felicidade.

Sahar Daghstani é refugiada nos EUA e Talib Zayid sofre de depressão crónica. Como é que as duas histórias se cruzam? No confronto entre o exílio geopolítico e o exílio interior, que a exposição “On Exile”, de José Carlos Teixeira, nos dá a conhecer e sobre o qual nos obriga a refletir.

Despido de sentimentalismos ou paternalismos, o artista português radicado nos EUA propõe, com curadoria de João Pinharanda e Ana Anacleto, um olhar reflexivo, através de dois vídeo-ensaios, sobre o conceito de exílio, numa intersecção entre a arte, a antropologia e a política.

“Uma abordagem tem a ver com um exílio mais externo, mais coletivo e geopolítico relacionado com a temática dos refugiados, neste caso com asilo nos EUA. A segunda abordagem, sobre a depressão, tem uma dimensão psicológica, intimista e até metafórica”, diz José Carlos Teixeira, em entrevista ao Jornal Económico.

O artista convida-nos a parar, escutar, contemplar, sem recurso a artifícios excessivos, e a imergir-nos na vida de catorze refugiados a viver nos EUA – com a intervenção “On Exile, elsewhere within here” – e de dez pessoas que sofrem de depressão crónica – em “On Exile, fragments in search of meaning”. Distancia-se da exploração gratuita da dor, não caindo na tentação fácil da instrumentalização destas realidades. No fim, não há respostas fechadas, principalmente porque o objetivo é exatamente o oposto: questionar. Questionar representações, certezas, o outro, e nós – também enquanto outro. “Tento criar um espaço de intimidade e criar retratos que diminuam o espaço de alteridade, de distância”, diz.

Com um percurso marcado pela representação da identidade, da fronteira e da alteridade, a temática da exposição tornou-se urgente. “Comecei este trabalho com e sobre os refugiados antes da situação nos EUA se ter tornado mais complexa devido à eleição de Donald Trump. Com a questão dos vistos de vários países muçulmanos bloqueados, este trabalho tornou-se mais relevante”, explica.

É na busca da compreensão sobre as impressões enquanto novo elemento de uma sociedade onde o discurso xenófobo pode estar à espreita, que surgem as lutas e as conquistas de refugiados da Síria, do Sudão, da Somália e do Iraque, asilados atualmente em Cleveland, no Ohio, nos EUA. Mas também os receios e inseguranças. “Muitos dos indivíduos e famílias que entrevistei são pessoas que, direta ou indiretamente, estão a ser afetadas pelas políticas internas norte-americanas neste momento”, salienta José Carlos Teixeira.

No entanto, porque “há ou parece haver, ainda, uma série de reflexões que continuam elas próprios num estado de exílio. São tabus e inconvenientes, são normalmente pouco abordadas” na cultura contemporânea, deu também voz a um outro tipo de exílio.

“No trabalho sobre a depressão, o conceito de exílio é sempre pensado como um processo de exílio de ti mesmo. Ou seja, é estar fora do lugar, mas a nível psicológico e de alguma forma estar exilado de toda uma ideia de felicidade, ou normalidade, imposta ou proposta pela sociedade ocidental”, explica. “Daí as entrevistas, neste caso com dez pessoas que sofrem a vários níveis de depressão crónica”.

“O discurso [das pessoas que sofrem de depressão crónica] por ser tão direto, tão visceral, é um discurso que é pouco usual. De algum modo, esta realidade é uma dimensão que perpassa muitas das nossas vidas, muitas das nossas famílias, muitos dos nossos amigos, que é transversal a todos nós. Acabamos por nos identificar ou entrar em empatia com estas pessoas”, frisa.

É neste sentido que a relação com o outro está invariavelmente presente nesta exposição. “Todo o meu percurso tem sido uma experimentação com a alteridade, com a forma como pensamos o outro”. Porquê? “Porque quando pensamos o outro estamos necessariamente a pensar em nós próprios, não estamos fora deste processo. E depois como é que representamos o outro”.

Para o artista, “quando avançamos para o domínio das artes e do cinema, pretende-se de algum modo desmantelar uma certa forma de representação”. É por isso que se revela crucial ouvir apenas “estas vozes, estes corpos e estas histórias”.

“Não pretendo de todo impor um discurso e uma narrativa pré-estabelecida sobre estas pessoas. Qualquer espetador vai só confrontar-se, e entrar em relação, com cada uma destas pessoas e com as suas palavras”, conclui.

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