Regresso aos limites do crescimento

Os dilemas morais são inevitáveis. Será justo exigir o desacelerar do crescimento quando em 2021 cerca de 40% da população mundial vivia com menos de 5,5 dólares por dia?

Em final de outubro, um artigo publicado no “Financial Times” sugeria que os Países Baixos poderia ser o primeiro país a atingir os limites do crescimento. Simon Kuper, o autor, considera que, como consequência da sua dinâmica económica, a qualidade de vida neerlandesa tem vindo a diminuir, o que se manifesta na transformação de antigas áreas verdes em áreas de habitação, na falta de espaço para estacionar bicicletas – o veículo de locomoção privilegiado –, em esperas intermináveis por serviços (como Uber), ou no encerramento de estabelecimentos por falta de mão de obra.

O crescimento acelerado da população (hoje próxima dos 17,7 milhões), combinado com um território assente em diques e que encolhe devido às alterações climáticas, é responsável por uma elevada (cinco vezes a da União Europeia) e já sufocante densidade populacional.

A modernidade e as características globais das cidades neerlandesas que lhes permitiram atrair pessoas e as encheram de novas e proveitosas ideias, encostaram a economia aos seus limites de crescimento. Esgotou-se o espaço disponível para desenvolver mais atividades com neutralidade carbónica – um requisito europeu – ou mesmo para construir as casas necessárias para alojar os trabalhadores que lhe permitiriam continuar a expandir-se.

Segundo os especialistas, menos de três semanas depois da publicação deste artigo, a população mundial atingiu os oito mil milhões. Os mais pessimistas diriam que é a constatação da profecia malthusiana – a população mundial multiplica-se em progressão geométrica, esgotando os recursos que a permitiriam prosperar.

Em 1972, o relatório Limites do Crescimento do Clube de Roma recorria a métodos computacionais para alertar que, em menos de um século, a economia mundial seria conduzida aos seus limites do crescimento. Os seus autores simularam o efeito combinado do crescimento da população mundial e de uma produção industrial assente em recursos não renováveis, como o petróleo, concluindo que ou a humanidade mudava os seus hábitos de consumo ou a população e a produção industrial teriam que para de crescer subitamente por falta de recursos.

Criticado por menosprezar a capacidade do progresso tecnológico na reversão destes efeitos, este estudo abriria o debate para a necessidade de conter a produção e o consumo e assim controlar as emissões de gases com efeito de estufa, enquanto retomava o tema do perigo da bomba demográfica, desenvolvido por Paul Ehrlich em 1968, na senda das ideias de Malthus.

Os economistas do ambiente têm retomado estas ideias e defendido o movimento degrowth – a ideia de que é preciso abrandar o ritmo de crescimento, sobretudo para reduzir a pegada ecológica. A resposta ao problema da pressão sobre os recursos, de acordo com estes autores, será consumir menos e apostar na redistribuição à escala global.

Mas este exercício é tão mais urgente e tão mais complexo quanto maior a dimensão da população mundial. E surgem os inevitáveis dilemas morais. Será justo exigir o desacelerar do crescimento quando em 2021 cerca de 40% da população mundial vivia com menos de 5,5 dólares por dia? E, que garantias temos de que a redistribuição se fará a favor dos mais pobres?

Kuper olha para os Países Baixos e observa a realidade prevista no laboratório do Clube de Roma para regressar às conclusões de Malthus: o aumento da população ditará os limites do crescimento. E enfatiza o elemento paradoxal desta discussão – é o progresso que alimenta a população e dita estes limites. Não podemos usar o avanço social para inverter esta tendência?

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