Reino Unido: relatório interno também não foi suficiente para Johnson se demitir

Aperta-se o cerco em torno do primeiro-ministro, que não quis revelar sem margem para dúvidas se vai ou quando vai depor perante a polícia, que continua a investigar as festas dadas em Downing Street.

O primeiro-ministro britânico Boris Johnson continua a alegar que não vê qualquer impedimento em continuar à frente do executivo – e por isso recusa a sua demissão – apesar das evidências cada vez mais claras de ter participado em festas organizadas na sua residência oficial que podem ser consideradas ilegais. Johnson mantém a recusa em demitir-se mesmo depois de ter sido conhecido um relatório da autoria de Sue Gray, segunda secretária Permanente no Gabinete.

Os analistas consideram que o relatório “diz mais pelo que não diz que pelo que está exposto” – e o Partido Trabalhista, na oposição, já se queixou disso mesmo no parlamento britânico – mas, mesmo assim, o documento de Sue Gray vai afirmando que o pessoal que trabalhava para Boris Johnson em Downing Street durante o confinamento mostrou pouco respeito pelas regras vigentes naquela época, e “pelo menos em algumas das suas reuniões cometeu uma grave violação no que diz respeito a observar, não apenas as regras éticas que que trabalham no seio do governo, mas aqueles que poderiam ser exigidos à população britânica em geral durante este tempo”.

Sue Gray entregou o relatório esta segunda-feira a Boris Johnson, mas é apenas uma primeira “atualização” e não o relatório completo, que continua longe do alcance público. O texto contém referências mínimas àquilo que a polícia está a investigar por supostas ofensas criminais. Por exemplo, festa de 20 de março de 2020, a mais famosa entre a opinião pública e em que Johnson participou ou o aniversário surpresa que a sua mulher, Carrie Symonds, para ele preparou na Sala do Gabinete (onde o governo se reúne) não aparecem refletidas em detalhe.

Mas o relatório tem, ainda assim, detalhes importantes: descreve um ambiente em Downing Street onde havia “um consumo excessivo de álcool que nunca é apropriado no ambiente de trabalho” e “falhas de liderança e de julgamento por parte de diferentes departamentos” governamentais. “Alguns eventos nunca deveriam ter sido permitidos e outros deveriam ter sido permitidos de outra forma”, diz o relatório.

Gray não atribui responsabilidade pessoal ao primeiro-ministro. A intervenção, em meados da semana passada, da Polícia Metropolitana de Londres trouxe mais confusão ao escândalo que paralisou a atividade política britânica nas últimas semanas. Mas o relatório acaba por ser um alívio para Johnson, uma vez que a própria polícia impediu que o texto versasse sobre algumas questões por estas fazerem parte da investigação policial.

Mesmo assim, a oposição não desarma e as metástases do caso no interior do próprio Partido Conservador também estão a apertar-se sobre Johnson. Para os analistas, que sabem que Johnson dificilmente se demitirá, pelo menos para já, o primeiro-ministro deve estar prestes a avançar com uma remodelação do executivo.

Como é seu costume, Boris Johnson livrar-se-á de alguns dos que lhe são próximos, na tentativa de dar a entender que está a fazer uma espécie de expiação. Isso quer dizer que usará o que tiver à mão – no caso será o Brexit mas também a questão da Ucrânia – para tentar aliviar a pressão sobre a sua pessoa. A decisão de eliminar a obrigatoriedade da vacina contra a Covid-19 para os profissionais de saúde, medida que provocou uma das maiores rebeliões até entre os deputados conservadores, indica que o primeiro-ministro está já a seguir essa opção, segundo os analistas.

Johsnson foi esta segunda-feira ao parlamento – onde teve oportunidade de voltar a afirmar que não vê qualquer necessidade de se demitir, mesmo que venha a ser acusado de conduta imprópria. Mas foi muito evasivo quando os liberais lhe perguntaram se a polícia já o tinha chamado para depor no processo em investigação. O ambiente na Câmara dos Comuns ao longo da tarde foi de tal ordem, que Luke Pollard (do Partido Liberal) perguntou se havia uma cultura de consumo de drogas em Downing Street, ao que Johnson lhe respondeu que drogas no gabinete seriam um excesso e que devia dirigir a pergunta à bancada trabalhista.

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