Relatórios, apelos de urgência e protestos. Os momentos que estão a marcar o COP24

A Cimeira do Clima termina hoje. Depois de duas semanas a discutir medidas de prevenção contra o aquecimento global, avaliar progressos e alertar os representantes para fazer melhor, o COP24 chega ao fim. Estes foram os momentos chave da cimeira.

A Cimeira do Clima (COP24), a decorrer em Katowice, Polónia, termina esta sexta-feira. Duas centenas de representantes de quase 50 países juntaram-se na pequena cidade polaca situada no meio da Silésia – uma das maiores regiões produtoras de carvão da Europa (sendo que 80% da eletricidade da Polónia vem da energia do carvão, o mais poluente dos combustíveis fósseis) para debater a situação climática atual.

Além dos protestos de jovens e estudantes nas ruas que aconteceram durante a cimeira, foram debatidos os resultados do Acordo de Paris (assinado em 2015) e lançados alertas para a falta de ação de algumas nações.

A abrir a cimeira, o secretário geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, discursou e sublinhou que ”este é o desafio sobre o qual os líderes desta geração serão julgados. Estamos em grandes apuros”, disse, dirigindo-se aos vários chefes de Estado e representantes de governos de todo o mundo sentados na plateia. “Para muitas populações, [as alterações climáticas] já são uma questão de vida ou de morte”, sublinhou o antigo primeiro-ministro português na Cimeira do Clima. Estes foram os pontos chave desta cimeira:

  • G20 reafirma apoio a Acordo de Paris, menos os Estados Unidos

Ao mesmo tempo que arrancava a Cimeira do Clima, decorria o G20 na Argentina, onde o presidente norte-americano, Donald Trump, marcava presença. Todos os líderes presentes assinaram uma declaração que inclui uma seção sobre clima que reafirma a a sua posição perante o Acordo de Paris.

Trump confirma: EUA saem do Acordo de Paris

“Continuaremos a enfrentar as mudanças climáticas, promovendo o desenvolvimento sustentável e o crescimento económico”, lê-se no comunicado.

Numa cláusula separada é recordada a posição dos EUA e a sua rejeição do acordo de Paris. No entanto os norte-americanos afirmam defender “o crescimento económico, o acesso à energia e à segurança, utilizando todas as tecnologias disponíveis e fontes de energia, protegendo o meio ambiente”.

  • ”Estes foram os anos mais quentes da história”

O ano de 2018 foi o quarto mais quente da história desde que os registos começaram a ser feitos, em 1850. Perdeu apenas para 2016, 2017 e 2015, o que quer dizer que os quatro últimos anos foram os mais quentes. Os dados foram revelados durante a cimeira e são do relatório Estado do Clima Global, da Organização Meteorológica Mundial (OMM).

Segundo o relatório, a temperatura global até outubro de 2018 foi 0,98ºC, a temperatura mais alta que a média da era pré-industrial (1850 a 1900). Entre 2014 e 2018, a média foi de 1,04oC.

No início de outubro, o Painel de Cientistas Climáticos da ONU – IPCC, publicou um relatório especial que mostra que a humanidade terá cerca de 12 anos para cortar 45% das suas emissões se quiser evitar um aquecimento global potencialmente catastrófico acima de 1,5ºC.

  • ”Como podemos alimentar o mundo sem destruí-lo?”

Como podemos alimentar 10 mil milhões de pessoas até 2050 sem aumentar as emissões, impulsionar a desflorestação ou alimentar o crescimento da pobreza? Foi a questão abordada pelo relatório da organização não-governamental, World Resources Institute (WRI).

O WRI não nega que pessoas terão que mudar drasticamente as suas dietas e reduzir o consumo de alimentos altamente oriundos de animais, como a carne vermelha. Durante a apresentação do relatório, Craig Hanson dirigente da organização, salientou que reduzir o consumo da carne não significa (necessariamente) adotar uma dieta vegetariana.

Consumo da carne terá que ser reduzido em 90% para evitar “colapso climático”

”Isto não significa que todos precisam de adotar uma dieta vegetariana. Na verdade, se apenas 2 mil milhões de pessoas que tenham uma dieta com alto teor de carne bovina reduzirem seu consumo em 40%, até o ano 2050, nós realmente conseguiremos reduções maciças nas emissões de gases do efeito estufa ”, explicou.

  • Emissões de CO2 atingiram níveis recorde em 2018

As emissões de gases nocivos para o ambiente alcançaram “níveis recorde em 2018”, apesar do crescimento das energias renováveis, alertou o diretor executivo da Agência Internacional da Energia (AIE), Fatih Birol.

Enquanto as emissões globais de combustíveis fósseis estagnaram entre 2014 e 2016, o relatório, chamado ”Global Carbon Budget 2018′‘  projeta que as emissões aumentaram 2,7% este ano, após um crescimento de 1,7% em 2017. Em causa está sobretudo um aumento no uso global de carvão, bem como aumento das emissões do transporte.

China, Rússia e Canadá poderão impulsionar catástrofe ambiental, revela novo estudo

China, EUA, Índia, Rússia, Japão, Alemanha, Irão, Arábia Saudita, Coreia do Sul e Canadá são listados como os maiores emissores. A União Europeia no seu conjunto ocupa o terceiro lugar. Harjeet Singh, líder global em mudança climática para a organização de caridade internacional ActionAid, disse à CNN que o crescimento das emissões foi “muito deprimente”, e que os governos que participam da COP24 devem agora garantir a justiça climática.

  • Estados Unidos, a Arábia Saudita, a Rússia “tomam nota” das conclusões científicas

O relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU afirma que deve haver esforços substanciais antes de 2030 para limitar o aquecimento a 1,5º graus Celsius para evitar consequências drásticas.

Relatório exige transformações “sem precedentes” para limitar aquecimento global

Os EUA, a Arábia Saudita, a Rússia e o Kuwait – os principais produtores de combustíveis fósseis – disseram que “anotariam” as conclusões científicas, em vez de recebê-las e revê-las como os restantes representantes presentes na cimeira.

Um porta-voz do departamento de estado dos EUA disse: “os Estados Unidos estão dispostos a tomar notas do relatório e agradecemos aos cientistas que o desenvolveram, mas não vamos saudá-lo, já que isso denotaria apoio ao relatório. Como deixamos claro ao IPCC e a outros órgãos, os Estados Unidos não apoiam as conclusões do relatório”.

  • Ninguém está no pódio dos países com as melhores políticas climáticas

Nenhum dos países avaliados no novo relatório está a fazer o suficiente para limitar o aumento da temperatura global a 1,5°C. O ”Climate Change Performance Index 2019” , publicado pelas organizações não-governamentais de ambiente Germanwatch e a Rede Internacional de Ação Climática e do NewClimate Institute, compara o desempenho climático de 56 países e da UE, que juntos são responsáveis ​​por mais de 90% das emissões globais de gases de efeito estufa (GEE).

Em termos globais, Portugal está em 14º lugar, numa lista de 57 países — ou em 17.º lugar, se contarmos com os três primeiros lugares por preencher. Estes primeiros lugares estão normalmente vazios, porque as organizações que criaram o índice consideram que nenhum país atinge um nível muito alto no desempenho em relação às alterações climáticas.

A Suécia e Marrocos, que ocupam os primeiros lugares do índice, também estão entre os cinco países com melhores políticas climáticas.

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