Reporte de temas financeiros vai exigir novas competências

Tema da sustentabilidade traz desafios à área da Contabilidade como criar modelos de ‘report’ para um tecido empresarial dominado por microempresas. Ensino superior reforça resposta com novas aprendizagens.

A sustentabilidade atravessa todos os vectores da sociedade e irá assumir cada vez mais importância no futuro. Hugo Ribeiro, contabilista certificado, CEO da HVR Business Consulting, antecipa o caminho ao Jornal Económico: “Vamos assistir a consumidores que vão ter escolhas cada vez mais conscientes dos impactos dos seus consumos, no entanto, não será de todo linear criar modelos de ‘report’ para um tecido empresarial português caracterizado por microempresas muitas delas que correspondem em muitos casos à criação do próprio emprego”.

A criação deste tipo de obrigações a determinadas áreas não terá “o impacto que se pretende”. Mais. “Será para este tipo de negócio apenas algo burocrático e sem enquadramento”. Em concreto, “na área da Contabilidade apesar de ser o tema do passado congresso ainda está num processo embrionário”, adianta Hugo Ribeiro.

A transição para uma economia mais sustentável, que parece ter-se tornado irreversível nesta segunda década do século XXI, significa que os critérios ambientais, sociais e de governança, conhecidos por ESG, serão fundamentais na gestão das empresas e organizações do futuro. Neste contexto, olhamos para o sector da Contabilidade. Como estão os contabilistas a endereçar o desafio da sustentabilidade? São necessárias novas competências? Que papel desempenha a academia neste processo?

No ISCAL – Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Lisboa, Ana Isabel Dias, diretora da licenciatura em Contabilidade e Administração, e Pedro Pinheiro, presidente do Instituto, sinalizam que os ESG, tópicos de Environmental, Social and Governance, no original em inglês, e a sustentabilidade são hoje um dos principais desafios em diversas áreas de atuação e a Contabilidade não é exceção.

“Os contabilistas, face a este desafio, têm respondido como habitualmente o fazem, ou seja, preparando-se para enfrentar uma abordagem diferente daquela que tradicionalmente enfrentam. O relato da informação de natureza não financeira e a garantia da fiabilidade desta, implica que os contabilistas adquiram um novo conjunto de competências que os possa preparar convenientemente para esta alteração de paradigma”, afirmam.

Explicam depois que “a problemática da recolha da informação de natureza não financeira, o seu tratamento e o adequado relato dessa mesma informação, de modo a suprir as necessidades dos diferentes stakeholders” faz com os contabilistas necessitem, em muitos casos, de efetuar um esforço adicional para responder de forma afirmativa ao desafio. Assim, segundo os professores do ISCAL, o foco dos contabilistas está na formação, instrumento que pode ajudar a “desenvolver as competências necessárias para endereçar o relato ESG com os mais elevados padrões de qualidade e deste modo contribuir, no âmbito das suas competências, para o desígnio do desenvolvimento sustentável”.

A perspetiva da Católica Porto Business School
Paulo Alves, professor associado da Católica Porto Business School e diretor do MSc Finance, diz ao Jornal Económico que a formação de contabilistas, que é “muito focada na excelência ao nível do conhecimento contabilístico”, carece de “uma profunda adaptação para fazer face às novas exigências” de um ambiente de negócios fortemente marcado pela agenda da sustentabilidade.

“A criação de valor por parte do profissional de Contabilidade será cada vez mais ancorada na sua capacidade de acompanhar a entidade num complexo ecossistema com exigências crescentes ao nível da informação necessária”, explica.

No geral, este cenário torna “urgente e imperativa”, a inclusão de disciplinas que desenvolvam competências nas áreas da estratégia, risco e sustentabilidade, e a interligação destas à contabilidade, ao relato de informação não financeira e às finanças empresariais.

Paulo Alves chama a atenção para o facto da formação na área da sustentabilidade não ser específica a um ramo do conhecimento. O que se trata é de formação que permita o “desenvolvimento de profissionais capazes de fazer a diferença para uma sociedade mais sustentável”. Nesse sentido, adianta, a sustentabilidade é uma matéria core na estratégia da Católica Porto Business School e no seu propósito de “formar profissionais de excelência”.

Este compromisso, acrescenta, traduz-se “na preocupação da Escola em acompanhar os mais recentes desenvolvimentos na área e incluí-los nos cursos”. Ao que refere, a inclusão das matérias relacionadas com a sustentabilidade atravessa toda a oferta formativa, desde uma abordagem mais disseminada na licenciatura, a uma formação específica ao nível da formação pós-graduada.

Exemplos? O Mestrado em Finanças inclui uma disciplina exclusivamente focada em Sustainable Finance. Na formação para executivos está atualmente em fase de candidaturas a primeira edição do curso Innovation for Sustainable & Regenerative Business. Finalmente, e em parceria com a WU – Vienna University of Economics and Business, uma das mais reputadas business schools do mundo, a CPBS organiza a Porto Sustainable Business Summer School que permite uma experiência internacional distinta.

A perspetiva do ISCAL
Ana Isabel Dias, docente e Pedro Pinheiro, presidente do ISCAL, dizem ao JE que da parte dos alunos ou futuros alunos, há não só interesse, mas entusiasmo para aumentar o nível de conhecimento neste assunto. “As novas gerações, tendencialmente mais despertas para problemáticas relacionadas com as alterações climáticas, muito devido ao foco colocado pelo ensino obrigatório nesta temática, estão mais do que predispostas para abarcar estas aprendizagens”.

A matriz de competências do International Federation of Accountants (IFAC) para a qualificação de um profissional – uma pirâmide de três níveis (fundamental, intermédio e avançado) – baseia os resultados da aprendizagem em compreender o problema, providenciar a solução e aconselhar e relatar, sempre a par de um comportamento ético expectável.

“Assim — explicam Ana Isabel Dias e Pedro Pinheiro — as competências a desenvolver para os tópicos de ESG serão baseadas nesta mesma linha de ensino-aprendizagem que permita desenvolver competências na análise de questões complexas, e por vezes, até controversas, relativamente a aspetos que se revestem de elevado nível de abstração, o que conduz a uma maior dificuldade na garantia da fiabilidade do processo de relato”. Todavia, acrescentam, as pressões dos vários stakeholders para “um relato mais transparente”, conjugada com “a necessidade do mundo empresarial de dar a conhecer os seus modelos de negócios”, conduziu “a práticas de relato que abrangem os tópicos relacionados com o ESG” e, atualmente, a que fossem “alvo de regulação”.

formação para contabilistas
O ISCAL é herdeiro da Aula do Comércio, criada por Marquês de Pombal em 1759. A sua oferta abrange Contabilidade, Fiscalidade e Auditoria. No primeiro ciclo existe a licenciatura em Contabilidade e Administração e no segundo ciclo o mestrados em Contabilidade, em Fiscalidade e em Auditoria. Nos cursos não conferentes de grau, destacam-se a especialização em Contabilidade, Fiscalidade e Planeamento no Setor Segurador, em parceria com a Associação Portuguesa de Seguradores, e a Pós-Graduação em Contabilidade e Gestão Pública, em parceria com o ISCSP-UL.

Pedro Pinheiro adianta ao JE que o ISCALse prepara para reforçar no próximo ano a oferta formativa não conferente de grau, própria e em parceria, relacionada com a problemática da sustentabilidade e do relato integrado.

Já nas licenciaturas e mestrados, o caminho passa pela atualização das unidades curriculares, incorporando os tópicos de ESG, enquanto parte de conteúdos relacionados com o relato empresarial e com a ética profissional.

O objetivo destas alterações é que os diplomados ganhem um conjunto de competências para que possam também eles responder de forma afirmativa aos desafios futuros.

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