Respostas Rápidas: Como é que o Reino Unido chegou à crise em que se está a afundar?

Razões históricas mas também de política interna motivam uma situação que está a extremar-se para lá das mais radicais das previsões.

De onde vem a reserva do Reino Unido face à Europa?

De sempre. Desde logo porque o Marechal De Gaulle, que tinha usufruído da hospedagem inglesa (e do esforço de guerra e dos cofres norte-americanos) durante a II Guerra Mundial, vetou por duas vezes a entrada do Reino Unido na CEE. Muitos anos mais tarde, em 1992, quando o Reino Unido teve que ratificar o Tratado de Maastricht (que transformou a CEE na UE) Margaret Thatcher, que havia sido deposta como primeira-ministra dois anos antes, liderou um grupo de oposição ao acordo. O seu substituto, John Major, também conservador, teve enormes dificuldades em ratificar o tratado e o eleitorado brindou-o pouco depois, com uma derrota histórica. Os britânicos nunca gostaram do que leram no Tratado de Maastricht.

Tony Blair era um eurocético?

Antes pelo contrário – e esse terá sido o problema: é que, depois de anos no poder, toda uma geração de conservadores cresceu na convicção de que qualquer conversa anti-trabalhista deveria começar com um ‘statement’ contra a União Europeia. Ou, o que era o mesmo, contra Tony Blair.

 

E David Cameron?

Foi David Cameron, primeiro-ministro conservador, que arranjou toda esta confusão. Cameron prometeu a realização de um referendo sobre a permanência na União Europeia se vencesse as eleições seguintes por maioria absoluta – principalmente para calar a ultra-direita do UKIP e alguma acantonada dentro do seu próprio partido. Estava tudo previsto: Cameron venceria as eleições com maioria simples, teria que recorrer a um governo de coligação e seria obrigado a desistir do referendo. Só houve uma coisa que correu mal: Cameron teve uma maioria absoluta. Encurralado, David Cameron preferiu manter-se neutro (ou defender o ‘não’ muito (mas mesmo muito) moderadamente. Quando o ‘sim’ ganhou, a sua carreira política acabou.

 

O que fez Theresa May?

Mal assumiu o lugar de Cameron, decidiu convocar eleições para sentir-se sufragada pelos votos e reforçada na sua maioria, o que lhe daria forças suplementares para negociar a saída que uma mínima maioria de britânicos (mais idosos que novos, mais campestres que urbanos, pouco letrados) tinha decidido. O plano era bom, mas faltou uma coisa: May perdeu a maioria absoluta e teve que andar a ‘bater a várias portas’ para conseguir formar governo.

 

A primeira-ministra era a favor da saída?

Não. Mas rodeou-se de ‘brexiters’ para demonstrar que iria cumprir ‘as ordens’ do povo. Quando chegou a Bruxelas depois de acionar o artigo 50 do tratado, tinha perante si Jean-Claude Juncker, Donald Tusk e Michel Barnier preparados para vender cara a saída.

 

Qual era o principal problema no início das conversações?

A questão da fronteira entre as duas Irlandas.

 

Qual é o principal problema atual?

A questão da fronteira entre as duas Irlandas.

 

O que mudou então?

Depende dois pontos de vista. Do ponto de vista de Bruxelas não mudou nada. Do ponto de vista de Londres mudou tudo: May aceitou condições que implicam que o Reino Unido deixa a União Europeia, mas não toda a União Europeia – e isso é uma coisa que os brexiters não podem aceitar: se é para sair, deixa de haver contactos.

 

O que vão fazer os deputados?

Tudo leva a crer que vão votar maioritariamente contra o acordo – se algum dia os deixarem votar. Segundo a imprensa britânica, mais de 400 em 650 deputados dirá ’não’ ao acordo de May.

 

O que lhe resta fazer?

Fugir de um problema para o outro. Fugiu da votação, que devia ter acontecido esta terça-feira, para Bruxelas – onde não há ninguém para renegociar o que quer que seja. De lá fugirá de novo para Londres na tentativa de, por via negocial, convencer um grupo numeroso de conservadores a seguirem a sua determinação de voto.

 

Qual é o principal facto de que a primeira-ministra é acusada?

De não ter esclarecido os britânicos ao longo dos muitos meses que levaram as negociações. Em todos os seus discursos em que anunciava os seus objetivos e linhas vermelhas nunca explicou os riscos de uma saída desordenada ou os efeitos do problema de fronteira das duas Irlandas. Durante o referendo, a questão da divisão da Irlanda dificilmente apareceu como um tema de debate. E a ala eurocética do seu partido disse que desde o início que sair sem um acordo não representaria qualquer problema ou risco. Ora, quando chegou a hora de tomar decisões difíceis, os brexiters optaram por deixar o governo.

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