Respostas rápidas. Intercalares nos EUA: muito mais que uma escolha de deputados

Momento importante no quadro da política interna, as intercalares dos Estados Unidos servirão desta vez para adensar a questão que está a marcar a agenda internacional: estará Donald Trump de volta em 2024?

Os eleitores norte-americanos escolhem esta terça-feira, 8 de novembro, 35 novos senadores (em 100, escolhidos para um mandato de seis anos) e 435 novos deputados da Câmara dos Representantes (a totalidade), as duas instâncias que compõem o Congresso dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, e entre vários outros atos eleitorais de menor importância (legislaturas estaduais, conselhos locais e até conselhos escolares) escolhem também os governadores de 36 dos 50 Estados e dos três territórios autónomos.

Porquê eleições a meio do mandato?

Foi uma opção constitucional no sentido de acrescentar controlo democrático às eleições para a presidência. Uma decisão oposta, por exemplo, à de França: ali, o presidente eleito conta com eleições gerais poucas semanas depois de tomar posse, precisamente para poder alinhar o parlamento com o governo. Na prática, a opção norte-americana resulta num bloqueio da Casa Branca, com quase todos os presidentes a queixarem-se de que a segunda parte dos seus mandatos acaba por ser pouco eficaz.

Qual é a lógica por trás das midterms?

As eleições intercalares nos Estados Unidos (conhecidas como midterms) servem precisamente para auscultar a reação dos eleitores à primeira parte do mandato presidencial. Em mais de 160 anos desta prática, o partido do presidente em exercício raramente escapou ao voto sancionatório. O que não quer necessariamente dizer que, dois anos depois, o partido do presidente não acabe por ganhar as presidenciais, como sucedeu variadas vezes.

Como são distribuídos os lugares na Câmara e no Senado?

Cada Estado, independentemente de sua população, tem direito a eleger dois deputados no Senado, enquanto os lugares na Câmara dos Representantes são distribuídos com base no número de eleitores.

O que dizem as sondagens?

Refira-se que o Partido Democrata do presidente Joe Biden tem atualmente uma maioria escassa na Câmara dos Representantes (221 contra 210, havendo quatro lugares vagos) e no Senado (aqui, apenas se acionar o voto de qualidade de Kamala Harris, vice-presidente da federação e presidente do Senado por inerência). As sondagens são unânimes em apontar para uma provável vitória dos republicanos na Câmara dos Representantes e uma possível mas menos provável vitória no Senado. O Partido Republicano pode arrebatar aos democratas entre 10 e 25 lugares.

Que grandes temas estão em causa?

Desde logo a questão da inflação, que tem feito crescer os preços de todos os bens, colocando os consumidores norte-americanos numa posição especialmente desconfortável. Um dos itens que maior impacto tem historicamente no país e o preço dos combustíveis, que está especialmente alto. Biden não conseguiu convencer a OPEP+ (e principalmente a Arábia Saudita) a aumentar a produção para fazer baixar o preço dos combustíveis e os republicanos (que costumam ser mais bem recebidos em Riad que os democratas) agradecem. A outra consequência do aumento dos preços é a diminuição do investimento (patrocinada pelo aumento das taxas de juro da Reserva Federal), o que implica o aumento do desemprego.

Há ainda a questão do aborto, com os republicanos a tentarem reverter as leis mais permissivas patrocinadas pelos democratas. O tema ajudou a que o país fosse rasgado ao meio, com a Casa Branca a fazer todos os esforços para impedir que cada Estado seja soberano na matéria – o que implica que pode ir contra as decisões do Supremo. Ainda no quadro dos ‘temas fraturantes’ está a muito antiga questão das leis da posse de armas pessoais – com os republicanos (velhos aliados da National Rifle Association, NRF) a tentarem impedir (há décadas) que os democratas consigam restringir a ‘balbúrdia’ em torno da matéria.

Finalmente, há a questão da guerra na Ucrânia. Os republicanos têm-se mostrado pouco interessados em ver a continuação da drenagem de financiamento público para financiar uma guerra longínqua, tanto mais que em causa está não o inimigo de eleição do partido, a China, mas um outro, a Rússia, com quem existem laços de entendimento que remontam ao fim a União Soviética, em 1991. Se os republicanos vencerem, Joe Biden terá muito possivelmente maiores dificuldades em fazer passar a capacidade legislativa de pagar novas armas para enviar para as trincheiras ucranianas.

E do ponto de vista político?

Já ninguém tem dúvidas sobre o facto de uma vitória republicana ser uma espécie de bilhete de ida de Donald Trump até à convenção que irá lançar as primárias para as presidenciais de 2024. Ao contrário do que sucede tradicionalmente, o ex-presidente Trump manteve-se ‘à tona de água’ como o improvável líder da oposição republicana, apesar de esse lugar não existir no histórico dos partidos republicanos. Num quadro em que, segundo as sondagens, mais de 66% dos republicanos estão convencidos de que houve fraude nas eleições de 2020 e que Trump deveria ter sido reeleito, o ex-presidente tem tudo para voltar à Casa Branca em 2024.

Até porque do outro lado, pelo menos para já – e admitindo-se que Joe Biden não tem condições (de saúde) para tentar a reeleição – não está evidente quem poderia ser um bom opositor a Trump. Há dois anos, os democratas ‘apostaram todas as fichas’ em Kamala Harris, eleita vice-presidente – mas a verdade é que a ex-senadora da Califórnia não conseguiu impor a sua presença e neste momento não faz parte da lista de potenciais sucessores de Biden. Aliás, a dar crédito às notícias sobre a matéria, essa lista pura e simplesmente não existe.

Todos os eleitores votam esta terça-feira?

Não. Cerca de 41 milhões de norte-americanos já votaram em todo o país, tanto por meio de voto por correio seja pelas pesquisas presenciais antecipadas, de acordo com uma contagem do Projeto Eleitoral dos EUA da Universidade da Flórida. A empresa de sondagens Gallup disse no início deste mês que 41% dos eleitores norte-americanos elegíveis pretendiam votar em antecipação (eram 34% em 2018), com 54% dos democratas a afirmarem que votariam antes desta terça-feira, o mesmo acontecendo com 32% dos republicanos.

Relacionadas

Intercalares nos EUA. “Há um grande movimento nos Democratas para que Joe Biden saia”

As intercalares norte-americanas estão à porta e tudo indica que os democratas vão perder pelo menos uma das câmaras do Congresso. Os dois próximos anos de Joe Biden serão muitos difíceis. Veja a análise do embaixador Francisco Seixas da Costa no programa “A Arte da Guerra”, da plataforma multimédia JE TV.

EUA. Mais de 40 milhões de eleitores votaram antecipadamente

Mais de 40 milhões de norte-americanos já votaram antecipadamente para as eleições intercalares nos Estados Unidos, que se realizam na terça-feira, superando a participação por esta via nas eleições de 2018.

EUA. Desinformação sobre eleições intercalares continua a aumentar

Teorias de conspiração sobre boletins de voto por correspondência, mensagens anónimas para os eleitores ficarem em casa e desinformação eleitoral nas redes sociais são obstáculos a superar nas primeiras eleições intercalares da presidência de Joe Biden.
Recomendadas

Cimeira da NATO: o Ártico é a próxima fronteira

A entrada da Suécia e da Finlândia na NATO, um dos temas centrais da agenda da cimeira da Roménia, transforma o Ártico numa nova zona de conflito potencial. A Rússia lembrou esse perigo, que Jens Stoltenberg conhece bem.

JE Podcast: Ouça aqui as notícias mais importantes desta quarta-feira

Da economia à política, das empresas aos mercados, ouça aqui as principais notícias que marcam o dia informativo desta quarta-feira.

Morreu Jiang Zemin, ex-presidente e um dos construtores da China moderna

Foi um dos obreiros do crescimento económico da China e pretendeu construir um relacionamento estável com os Estados Unidos. Queria uma China a “entrar no mundo”.
Comentários