Respostas rápidas. Que alternativas tem a Europa se o conflito entre a Rússia e a Ucrânia comprometer o fornecimento de gás?

As crescentes tensões na fronteira Rússia-Ucrânia aumentaram as preocupações sobre um agravamento da crise de abastecimento de gás da Europa que pode colocar em risco o custo de vida das famílias, mas há alternativas, mais ou menos viáveis.

O que pode colocar em causa o abastecimento de gás na Europa?

A Rússia é o maior fornecedor de gás da Europa, dos quais um terço flui através dos gasodutos da Ucrânia. Os líderes europeus temem que uma invasão russa à Ucrânia possa significar uma catástrofe energética se as exportações de gás forem cortadas.

Ao contrário de outros fornecedores de oleodutos, no quarto trimestre de 2021 a Rússia reduziu as exportações para a Europa em 25%, em comparação com o mesmo período de 2020, segundo a Agência Internacional de Energia.

De acordo com o “The Guardian”, autoridades da Casa Branca disseram esta semana que Biden está a preparar-se para finalizar um acordo para “garantir que a Europa seja capaz de sobreviver ao inverno e à primavera”, intermediando um acordo para que os principais países produtores de gás enviem gás natural liquefeito (GNL) para a Europa.

De lembrar que existem muitos exemplos de medidas de abastecimento de emergência no mercado global de petróleo, mas não para o gás. Pode ser que haja, de facto, uma primeira vez para tudo.

De onde poderia vir o gás de emergência da Europa?

As autoridades norte americanas destacaram que a procura por carregamentos de gás sobresselentes é “global”, apesar de se terem disponibilizado para ajudar caso seja necessário.

Segundo o “The Guardian”, um número recorde de cargas de GNL deixou os EUA com destino a portos europeus no último mês. Os americanos têm um forte incentivo a longo prazo para incentivar a Europa a desistir da sua dependência da Rússia e do projeto do gasoduto Nord Stream 2, para além do plano ideológico: as suas próprias reservas de gás de xisto.

Não obstante, as negociações devem-se concentra no Catar, um dos maiores produtores de gás do mundo e o segundo maior exportador de GNL, adianta o jornal britânico. O Catar é um forte aliado ocidental no Médio Oriente e fornece vários países europeus há anos através de navios-tanque.

A Líbia também pode ajudar devido à sua forte produção de gás e proximidade com o continente.

De quanto gás de emergência é que a Europa precisa?

A quantidade dependerá, sobretudo, do nível da tensão entre a Rússia e a Ucrânia. De momento, segundo o “The Guardian”, a Rússia envia cerca de 230 milhões de metros cúbicos de gás para a Europa todos os dias, dos quais cerca de um terço viaja para o ocidente através da Ucrânia.

Os especialistas de mercado dividem-se sobre a possibilidade de um corte no abastecimento do gás: enquanto uns se questionam sobre se a Rússia interromperá todas as exportações de gás para a Europa ou apenas aquelas que dependem dos gasodutos da Ucrânia, outros estão céticos sobre se o Kremlin arriscaria fechar, de todo, as torneiras de gás e, consequentemente, de dinheiro.

“Se a Rússia usasse as suas exportações de energia como arma, quanta energia cortariam? É difícil prever isso”, disse Helima Croft, do banco de investimentos RBC Capital, ao “The Guardian”. Mas a questão a colocar não é se os EUA poderiam fornecer gás para ajudar a mitigar qualquer interrupção, sublinhou.

Existe gás suficiente disponível para responder à eventual emergência?

Segundo a “Euronews”, um dos problemas atuais é que o armazenamento de gás europeu está no menor nível em sete anos: ronda agora os 49%, em comparação com cerca de 65% no mesmo período do ano passado, de acordo com a Gas Infrastructure Europe.

A crise global de fornecimento de gás surgiu quando as economias mundiais começaram a recuperação económica pós-Covid, o que significa que há pouco gás sobresselente, diz o analista Xi Nanm, da Rystad Energy, ao “The Guardian”.

Os EUA acreditam que não precisariam de “pedir a nenhuma empresa ou país individual para aumentar as exportações em volumes significativos, mas em volumes menores de uma infinidade de fontes”. “A questão”, disse Croft, “é se os EUA podem encontrar alguma folga no sistema”.

Atualmente, o Catar produz 77 milhões de toneladas por ano de GNL, mas contratou cerca de 97 milhões de toneladas por ano a compradores na Ásia, Europa, Kuwait e grandes empresas de energia que podem escolher para onde enviar cada carga. Os EUA também já comprometeram 80 milhões de toneladas de produção de GNL, segundo o jornal britânico.

Contudo, existe a possibilidade de algumas cargas destinadas à Ásia poderem ser desviadas para a Europa, graças às temperaturas amenas do inverno na região, o que reduz a procura por gás, disse Croft, acrescentando que seriam necessárias discussões “delicadas” entre os principais produtores de gás e os seus compradores asiáticos para negociar alguma flexibilidade nesse fornecimento.

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